(1)(1)(1)(1)(1).jpeg)
O 2 de Julho não representa apenas uma vitória militar. Representa a conquista da dignidade de um povo que decidiu não aceitar mais a submissão.
A Independência da Bahia não nasceu em um único combate.
Ela foi construída por homens e, de modo decisivo, por mulheres que compreenderam que a liberdade exige coragem, sacrifício e compromisso com um bem maior.
Entre esses nomes, destaca-se Joana Angélica, mártir da resistência. Quando as tropas comandadas por Madeira de Melo tentaram invadir o Convento da Lapa, ela colocou-se diante da porta. Não carregava armas, não comandava soldados e não exercia qualquer poder político.
Sua única força era a convicção de que havia princípios que não poderiam ser violados.
Mas Joana Angélica não esteve sozinha na construção desse legado.
Maria Felipa de Oliveira, com sua coragem indomável, mobilizou mulheres e homens na Ilha de Itaparica e enfrentou as forças portuguesas com inteligência, firmeza e ousadia. Maria Quitéria, por sua vez, rompeu as barreiras impostas ao seu tempo, vestiu-se de soldado e foi à luta pela Independência com a bravura de quem sabia que a pátria também precisava da força feminina para se libertar.
Ao entregar a própria vida, Joana Angélica fez mais do que defender um convento. Defendeu a dignidade do povo baiano.
Ao resistirem com coragem e determinação, Maria Felipa e Maria Quitéria transformaram-se em símbolos eternos de uma independência que também foi escrita pelas mãos das mulheres.
Seu protagonismo prova que a liberdade da Bahia não foi obra apenas de armas, mas também de consciência, coragem e liderança feminina.
Por isso, celebrar o 2 de Julho é muito mais do que recordar uma batalha.
É lembrar que nenhuma independência se sustenta sem cidadãos dispostos a defender aquilo que pertence a todos — e sem reconhecer que as mulheres estiveram, e continuam estando, na linha de frente dessa defesa.
E essa é a pergunta que o nosso tempo precisa responder.
Quem está defendendo o convento hoje?
O convento dos nossos dias não é feito de pedras.
O convento chama-se cidadania.
Suas portas são a Constituição, a ética, a justiça, a educação, a saúde pública, o respeito aos idosos, a correta aplicação dos recursos públicos e o direito de cada cidadão viver com dignidade.
Entretanto, essas portas continuam sendo atacadas.
As baionetas foram substituídas pela corrupção, pelo abuso do poder, pelo favorecimento político, pelo patrimonialismo e pela hereditariedade que transforma mandatos públicos em patrimônio familiar.
Cada geração produz seus Madeiras de Melo.
Mas toda sociedade livre precisa produzir também suas Joanas Angélicas, suas Maria Felipas e suas Maria Quitérias: mulheres e homens capazes de colocar os princípios acima das conveniências, a consciência acima dos interesses e o bem comum acima dos projetos pessoais.
O Brasil não precisa de heróis ocasionais. Precisa de cidadãos permanentes.
E precisa, sobretudo, reconhecer que a história da liberdade também foi escrita por mulheres que ousaram enfrentar o medo, romper o silêncio e ocupar o lugar que lhes foi negado.
Sem Joana Angélica, Maria Felipa e Maria Quitéria, a memória do 2 de Julho não estaria completa.
Porque a verdadeira independência não termina quando um exército deixa um território.
Ela precisa ser defendida todos os dias, sempre que a cidadania, a justiça e a democracia forem ameaçadas.
Neste 2 de Julho, talvez a homenagem mais sincera que possamos prestar aos heróis e heroínas da Independência da Bahia seja responder, cada um de nós, à pergunta que atravessa mais de dois séculos:
Quando o convento da cidadania é atacado, estamos entre os que forçam a porta ou entre aqueles que têm coragem de defendê-la?
Essa resposta determinará se somos apenas admiradores da história ou verdadeiros continuadores do espírito do 2 de Julho.
obrigado,
Luiz Alves



0 comentários