
O encerramento do São João de Petrolina de 2026 deixou uma imagem difícil de ignorar: um pátio grandioso, grandes investimentos, patrocinadores de peso, atrações nacionais e, em muitos momentos, um público aquém do esperado. Mais do que discutir números oficiais, vale refletir sobre um aspecto que talvez explique o distanciamento entre a festa e as pessoas: o modelo que foi adotado.
O São João, como o conhecemos no Nordeste, sempre foi uma celebração viva e coletiva. Sua força nunca esteve apenas nos grandes shows, mas no encontro entre vizinhos ao redor das fogueiras, nas apresentações das quadrilhas juninas, no forró pé de serra, nas comidas típicas e nas barracas de sisal entrelaçadas com palha de coco, que recriavam a paisagem do sertão.
Era uma festa construída pela iniciativa popular e para o povo. E isso não é saudosismo; é memória cultural. É evidente que as modernas estruturas metálicas oferecem mais segurança e que o entretenimento evoluiu.
A produção tornou-se mais sofisticada e os patrocinadores passaram a ocupar papel central. Não há problema algum em profissionalizar um evento ou buscar investimentos privados.
O problema surge quando a lógica comercial passa a determinar o formato da festa, privilegiando atrações que pouco dialogam com as tradições juninas e relegando a cultura popular a um papel secundário.
Costumo chamar, de forma propositalmente provocativa, de "áreas de preservação cultural" os espaços destinados ao verdadeiro simbolismo junino: as quadrilhas, os trios de forró, as casas cenográficas e outros elementos que representam a identidade do São João tradicional.
Embora importantes, esses espaços acabam confinados a um pequeno trecho da festa, cercados por uma gigantesca estrutura voltada ao consumo e à exploração comercial.
A iniciativa de reservar um "cantinho" para a cultura popular parece, à primeira vista, um gesto de valorização. Na prática, porém, lembra a lógica de grandes empreendimentos rurais que promovem extensos desmatamentos e preservam apenas uma pequena área da vegetação nativa para cumprir exigências legais. Mantém-se um fragmento da paisagem original, enquanto todo o restante é transformado.
Foi exatamente essa a sensação transmitida pelo São João de Petrolina: preservou-se um pequeno recorte da tradição para justificar um modelo fortemente orientado pelo lucro.
No centro da festa predominava a lógica do consumo, marcada por preços abusivos de bebidas e comidas, que afastaram parte do público e reduziram o tempo de permanência de quem decidiu participar.
É difícil compreender como um evento financiado com recursos públicos municipais, estaduais e federais, somados a vultosos investimentos privados, à comercialização de áreas patrocinadas, camarotes e espaços exclusivos, além do patrocínio de empresas de apostas esportivas, ainda consegue cobrar valores tão elevados do consumidor final: o povo.
Se houve recursos suficientes para erguer estruturas monumentais, montar áreas VIP, comercializar espaços privilegiados e pagar cachês milionários, também deveria haver prioridade para garantir conforto, acessibilidade, banheiros em número suficiente e condições dignas para quem realmente sustenta a festa com sua presença.
Não faz sentido imaginar um evento dessa dimensão deixando o público em geral espremido entre camarotes, áreas patrocinadas e estruturas comerciais, pagando caro para consumir e recebendo, em troca, muito menos conforto do que aqueles que puderam comprar experiências exclusivas.
Em muitos momentos, a impressão era de que o grande público servia apenas para preencher o cenário das transmissões televisivas, das fotografias, das imagens feitas por drones e helicópteros.
Era mais importante produzir a imagem de uma multidão do que garantir que essa multidão desfrutasse da festa com dignidade. Há muitos anos, Juazeiro experimentou um modelo semelhante ao adotar o Carnaval de blocos e cordas, separando quem podia pagar do restante da população.
O resultado foi o enfraquecimento de uma tradição construída pelos grupos carnavalescos e pelo povo. O São João de Petrolina parece ter criado uma versão mais sofisticada desse modelo.
As cordas continuam existindo, mas agora são invisíveis. Não são feitas de cabos, e sim de poder aquisitivo. Quem podia pagar encontrava conforto, serviços exclusivos, banheiros sem filas, espaços privilegiados e melhores condições para assistir aos shows.
Quem não podia, permanecia comprimido entre as estruturas montadas para os demais. A diferença é que, desta vez, o povo parece não ter aceitado esse papel.
A resposta veio silenciosamente. Muitos preferiram não comparecer. Outros permaneceram por pouco tempo. Não apenas por razões econômicas ou pela programação artística, mas porque deixaram de se reconhecer naquele ambiente.
Não existe receita pronta para organizar uma festa popular dessa dimensão. Mas é possível afirmar que seu sucesso não pode ser medido apenas pelo tamanho da estrutura, pela quantidade de patrocinadores, pelos cachês milionários ou pelo número de influenciadores digitais mostrando bastidores e curiosidades nas redes sociais.
O verdadeiro sucesso de um São João deve ser medido pelo sentimento de pertencimento que desperta em seu povo. Ainda há tempo para repensar esse modelo.
O São João de Petrolina continua sendo uma das maiores festas do Brasil e possui enorme potencial para crescer sem abrir mão de sua identidade. Modernizar é necessário. Buscar investimentos privados também. Mas nenhuma estratégia de marketing será capaz de substituir aquilo que sempre foi o maior patrimônio do São João: a cultura popular e as pessoas que lhe dão vida.
Á crítica circunstancial que faço sobre o São João, pretende propor uma reflexão sobre um modelo de gestão das festas populares e sobre a mercantilização da cultura, sem perceber o abismo. Porque, quando o povo deixa de se reconhecer na festa, o que se perde não é apenas público.
Perde-se a própria alma do São João. E, por isso, o São João de Petrolina desde ano, dificilmente deixará saudades.
João Leopoldo Gestor e Ativista Cultural



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