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Encarar novamente as imagens dolorosas da pandemia de Covid-19 é o principal desafio para o espectador ao assistir ao documentário “Anatomia do Caos”, mas, para Dandara Ferreira, foi a culminação de um longo processo de maturação. Examinando atentamente os depoimentos, registrando o passo a passo das discussões públicas e expondo debates de gabinete, a diretora chega ao longa, que entra em cartaz no Brasil nesta quinta (2) e ganha uma sessão especial no Recife, no Cinema São Luiz, neste sábado (4), às 18h, com a presença da realizadora.
Em abril de 2021, Dandara — que dividiu a direção da cinebiografia “Meu Nome é Gal” com Lô Politi — foi até Brasília e começou a registrar, sozinha, com sua própria câmera, a rotina da comissão de inquérito. Não era apenas a crise sanitária sem precedentes, porém, que apavorava a realizadora baiana. A disputa pela realidade, por verdades científicas que pareciam inquestionáveis, acabou se tornando um dos componentes mais assustadores desse percurso.
“Eu percebi que havia algo ali muito maior e mais perturbador do que a própria pandemia. O país estava atravessando um momento complexo, em que a política de desinformação do governo de Jair Bolsonaro transformava a morte em estatística”, afirma a cineasta em entrevista ao Diario. “Enquanto eu filmava, não tinha tanta consciência de qual filme seria aquele. Estávamos todos muito atordoados e mergulhados naquela situação. Fui registrando o que podia, credenciada como imprensa, e só depois aquelas imagens começaram a tomar forma”.
A CPI da Covid guia, sobretudo, o primeiro ato de “Anatomia do Caos”, que, nos atos seguintes, explora também imagens da TV Senado e registros de depoimentos já tão repercutidos nas redes sociais, feitos durante o período por diferentes veículos. Dandara reforça que o jornalismo foi fundamental para que o público tivesse dimensão do que estava acontecendo e, apesar das ambições cinematográficas do documentário, destaca que o principal protagonista é a própria voz da imprensa, funcionando como uma narradora coletiva.
“Achei que seria interessante e bastante sintomático separar o filme em três blocos: o primeiro, revelando as conversas de gabinete; o segundo, expondo a corrupção; e o terceiro, trazendo o negacionismo”, explica a cineasta. “O Senado é personagem do filme, não só cenário. Mas eu não abri nenhuma câmera depois de 2021. Eu queria manter uma linguagem de pura urgência mesmo. Foi apenas na edição que surgiram os paralelos com tudo o que acontecia fora daquele lugar”, revela Dandara, que não esconde que seu objetivo central sempre foi responsabilizar aqueles que ocupavam cargos de poder e que nunca foram responsabilizados de fato.



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