Intercâmbio de saberes: juventudes protagonizam debate sobre Convivência com o Semiárido em Casa Nova e Juazeiro

A Escola Família Agrícola da Caatinga (EFAC), em Casa Nova, e o Centro de Formação Dom José Rodrigues, em Juazeiro, abriram as portas para um intercâmbio com o Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental.

O encontro foi uma oportunidade para trocar vivências sobre a Convivência com o Semiárido e discutir temas como educação contextualizada, comunicação popular, gênero e raça, pilares essenciais na defesa do território e da justiça climática. 

A visita realizada no final do mes de abril foi um encontro que possibilitou novos olhares. Em um momento em que a EFAC consolida seus primeiros passos, receber uma articulação nacional que luta por justiça socioambiental fortalece a base de uma educação que nasce “pé no chão” e conectada com a realidade rural.

Durante a atividade, que ganhou um simbolismo especial por acontecer no Dia Nacional da Caatinga (28 de abril), os estudantes assumiram o protagonismo deste debate global. Com autonomia para falar de suas vivências, os depoimentos marcaram o encontro ao comparar o ensino convencional com a pedagogia da alternância. Os jovens relataram como a percepção sobre o bioma mudou, destacando que a rotina escolar ressignificou o sentimento de pertencimento e permitiu o aprendizado de saberes que antes eram invisibilizados. O diálogo revelou que o que antes era visto pela juventude como um “lugar da seca” ou do “atraso”, hoje é compreendido como um território de riquezas e possibilidades.

O momento proporcionou ainda um resgate histórico da trajetória da EFAC, marcada por lutas e conquistas, e permitiu aos visitantes conhecerem de perto desde o refeitório até as áreas produtivas. 

Rafa Dornelas, da secretaria do Fórum, definiu a visita à EFAC como uma experiência transformadora. Para ela, a pedagogia da alternância é uma ferramenta revolucionária por entender que o saber deve estar adequado à realidade do estudante:

“Conhecer a história de resistência dessa escola, que em seu segundo ano vence obstáculos a partir da solidariedade e do processo coletivo, reforça o quanto precisamos batalhar para manter nossas resistências. É nessa rede, construída a partir das escolas famílias agrícolas e das comunidades rurais e urbanas periféricas em resistência, que um novo mundo e a sociedade do Bem Viver podem ser sonhados e construídos”, afirmou Rafa.

A jornada avançou no Centro de Formação Dom José Rodrigues, reunindo uma diversidade de vozes em uma roda de conversa composta pelos coletivos Raízes Culturalizadas Nordestinas, Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Intervozes, Ponto de Cultura Galeota das Artes, além da comissão de juventudes do Irpaa, egressos e atuais estudantes da República do Irpaa.

O debate central girou em torno da necessidade de soluções localizadas para problemas globais. “Para enfrentar a crise climática, não tem como pensar em um modelo para o Brasil todo”, provocou Rafa. Alex, do coletivo Intervozes, reforçou que a comunicação popular é a ferramenta essencial para enfrentar as narrativas das grandes mídias, que historicamente invisibilizam o Sertão.

O Ponto de Cultura Galeota das Artes, que há 11 anos pulsa arte nas periferias e interiores, destacou a urgência de ocupar o ensino básico. “Precisamos encontrar terreno na educação para pautar esses debates”, afirmou Demis, integrante do grupo. A reflexão foi acompanhada pelos versos de Milton Nascimento: “Ficar de frente para o mar, de costas para o Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país”.

O encontro abriu caminho para reflexões sobre juventudes, gênero e raça, culminando na Trilha Pedagógica pela Convivência com o Semiárido e uma celebração cultural com capoeira e música. A visita provocou que debater mudanças climáticas com a juventude é reconhecer que as soluções passam, obrigatoriamente, pelas práticas de quem cuida e vive na Caatinga.

Texto e fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa