Crônica - A República: O Desafio Ético que o Brasil Não Pode Mais Adiar

As recentes denúncias envolvendo altas autoridades expõem mais do que desvios individuais: revelam um desgaste ético que atravessa partidos, cargos e instituições.

Quando figuras públicas tratam princípios básicos de integridade como detalhes dispensáveis, a política perde credibilidade — e o país inteiro sente as consequências.

Os sinais desse esgotamento estão por toda parte: serviços públicos fragilizados, descrença generalizada, instituições sob suspeita e um sentimento crescente de que nada muda. A normalização do inaceitável talvez seja o ponto mais perigoso desse processo. Ética não é ornamento, não é slogan, não é promessa de ocasião. Ética é estrutura. Sem ela, qualquer projeto nacional — ou local — desmorona antes de se consolidar.

A legitimidade do poder público depende de padrões morais claros, aplicáveis e respeitados. Na ausência deles, decisões políticas se tornam vulneráveis a interesses privados, ao clientelismo e a arranjos que ignoram o bem comum. Instituições sem regras sólidas ficam expostas a crises repentinas e rupturas que corroem a confiança social.

Quando aplicada de forma consistente, a ética fortalece a democracia. Ela amplia a participação cidadã, reduz a apatia política e devolve ao eleitor a sensação de que sua voz importa. Onde a ética prevalece, a política deixa de ser um jogo de conveniências e volta a cumprir sua função essencial: servir ao interesse público.

Nesse contexto, ganha relevância a proposta de um código de conduta nos moldes apresentados pelo ministro Luiz Edson Fachin, atual presidente do STF. Um instrumento com regras objetivas, linguagem acessível e sanções proporcionais poderia estabelecer um padrão mínimo de integridade para todos os ocupantes de cargos públicos.

No entanto, normas, sozinhas, não bastam. O país perdeu, ao longo das últimas décadas, espaços formativos fundamentais. É urgente revitalizar práticas educacionais capazes de formar cidadãos conscientes, responsáveis e preparados para conviver com a pluralidade política. Divergências são naturais — e até desejáveis —, mas só produzem avanço quando mediadas por princípios éticos sólidos.

Sem esse alicerce, o debate público se deteriora, a política se torna refém de impulsos imediatistas e as instituições ficam vulneráveis a crises sucessivas. Recuperar a ética como fundamento não é um luxo intelectual: é uma necessidade para qualquer democracia que pretenda sobreviver ao próprio tempo.

A mudança ética exige mais do que leis; exige transformação cultural. É preciso enfrentar práticas toleradas por décadas, romper resistências internas e aplicar as normas com rigor. A combinação entre legislação, fiscalização e educação é decisiva para alterar comportamentos e fortalecer a cidadania.

A ética na política não é detalhe técnico. É condição para que o Estado cumpra sua função básica. Investir em regras claras, fiscalização independente e formação ética é investir na reconstrução da confiança coletiva. Sem isso, qualquer avanço econômico ou social continuará vulnerável a retrocessos. O momento exige transformar indignação em reformas concretas e duradouras.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.