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Há cidades que vivem de silêncio, e há cidades que vivem de som e musicalidade. Pertencente ao segundo grupo, Juazeiro, definitivamente, tem isso de sobra. Aqui, até o vento que passa pela orla parece carregar um ritmo próprio, como se o Velho Chico soprasse acordes antigos para lembrar que esta terra já nasceu musical.
Não é exagero, portanto, asseverar que Juazeiro tem uma vocação natural para a arte. Afinal, foi daqui que saiu João Gilberto, o homem que reinventou a música brasileira com um violão sussurrado e uma batida que mudou o mundo. Mas João não é exceção: ele é síntese. Síntese de um povo que canta, que cria, que transforma o cotidiano em poesia — seja no batuque das comunidades, no improviso dos bares, no talento dos jovens que surgem a cada esquina.
Juazeiro sempre foi uma cidade que canta. Não apenas porque daqui saiu João Gilberto, o homem que reinventou a música brasileira com um violão quase sussurrado, mas porque a própria alma da cidade parece ter ritmo. O vento na orla, o burburinho dos mercados, o batuque espontâneo nos bairros — tudo aqui soa como se estivesse afinado com o Velho Chico.
Mas, apesar dessa vocação natural, Juazeiro ainda não transformou sua força cultural em política pública consistente. Somos celeiro de músicos, artesãos, artistas visuais, mestres das carrancas e criadores de toda ordem. Temos história, talento e identidade. Falta apenas organização.
E não é só música. Juazeiro também se expressa em madeira, barro e memória. As carrancas, com seus olhos atentos e bocas abertas, são mais do que artesanato: são guardiãs de uma história ribeirinha que insiste em sobreviver ao tempo. São símbolos de uma identidade que não se apaga, mesmo diante das pressões da modernidade.
Por isso, quando falamos em um plano de ações culturais para Juazeiro, não estamos falando de burocracia. Estamos falando presente no futuro da gente. De reconhecer que cultura não é enfeite — é motor. É economia, é educação, é pertencimento. É aquilo que faz uma cidade se enxergar e se orgulhar de si mesma.
Um plano de ações culturais não é luxo, mas, sim, uma necessidade. E uma das grandes. É o que pode garantir que a memória de João Gilberto vire formação musical para jovens; que as carrancas tenham proteção e mercado; que o turismo cultural deixe de ser promessa e vire economia real; que a arte chegue aos bairros e distritos com a mesma naturalidade com que a música brota nas esquinas.
Juazeiro já tem tudo o que precisa para ser referência nacional em cultura e criatividade. O que falta é transformar essa riqueza em projeto — e esse projeto em futuro. Talvez seja hora de a cidade finalmente se ouvir. Porque quando Juazeiro se escuta, o Brasil inteiro presta atenção.
Juazeiro merece um plano cultural que esteja à altura de sua grandeza. Um plano que transforme a memória de João Gilberto em política pública, que faça da Bossa Nova não apenas uma lembrança, mas um caminho de formação para novos músicos. Um plano que proteja os mestres das carrancas, que valorize os artesãos, que fortaleça os grupos tradicionais e que abra espaço para a juventude que cria, experimenta e ousa.
Merece também um turismo cultural que vá além das fotos na orla. Que convide o visitante a sentir o cheiro da madeira recém-esculpida, a ouvir o violão que ecoa nas praças, a navegar pelo São Francisco como quem navega por uma história viva. Juazeiro tem tudo para ser referência nacional em economia criativa — basta que a cidade se reconheça como o celeiro artístico que sempre foi.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



1 comentário
31 de Mar / 2026 às 07h04
Oramos, beijamos, choramos, e sonhamos de olhos fechados porque as coisas belas da vista são mais intensas no coração que o que as vistas mostram. A Juazeiro que amamos Getúlio, é mais bela e intensa nos nossos corações que a vista por insensatos.