Crônica - FILOSOFIA, TEOLOGIA E COSMOLOGIA: Quando o nome do Senhor é escrito no Universo.

Durante minha primeira e única viagem a Israel, em meio aos dias turbulentos da primeira Intifada, o país parecia respirar uma mistura de medo e esperança. As ruas estavam cheias de soldados, barricadas e olhares desconfiados, mas também havia crianças brincando, mercados funcionando e a vida insistindo em seguir. Era como se cada esquina revelasse o contraste entre a fragilidade humana e a força da sobrevivência.

Foi no saguão do Hotel King David, em Jerusalém, que tive um encontro marcante com o rabino Ben Shlomo. Eu e meu parceiro, José Luiz Boaventura, éramos os únicos católicos de um grupo de evangélicos, capitaneado pelo Pr. Átila Brandão. O ambiente no hotel parecia suspenso no tempo, muito perto do Museu da Torre de David e também da mesquita Al Masjid Al Aqsa. 

O ambiente, elegante e silencioso, parecia suspenso no tempo, como se oferecesse um refúgio da agitação que dominava a cidade. O rabino, sabendo que éramos brasileiros, veio-me agradecer a condução dos trabalhos diplomáticos na ONU pelo Chanceler Osvaldo Aranha, que culminou com a criação do moderno estado de Israel, e entramos em uma conversa casual sobre vida social, política e religião.

Após os cumprimentos de praxe, algumas palavras amenas, ele me confidenciou com um olhar sereno que o mundo poderia estar em guerra, mas o coração precisa buscar paz. Se não encontramos paz dentro de nós, nenhuma fronteira, nenhum tratado, poderia nos dar descanso.

Suas palavras atravessaram o barulho das sirenes e o murmúrio das orações ao redor. Falamos sobre fé, sobre o peso da história e sobre o poder dos nomes — o Nome Inefável, que não se pronuncia em vão, e que carrega em si a promessa de eternidade. O rabino me explicou que, assim como o sol se ergue e se recolhe nos ciclos de equinócios e solstícios, também a vida humana oscila entre momentos de equilíbrio e de extremos.  

Naquele instante compreendi que minha viagem não era apenas geográfica, mas espiritual. Israel, em meio à Intifada, me ensinava que mesmo em tempos de conflito há espaço para o diálogo, para o encontro e para a busca de sentido. A conversa com Ben Shlomo tornou-se um marco: uma lembrança de que, diante da violência e da incerteza, a fé pode ser o fio que nos conecta ao eterno.

O ser humano, desde a Antiguidade, buscou compreender o cosmos e relacioná-lo ao sagrado. Os fenômenos astronômicos — equinócio e solstício — marcaram calendários agrícolas, rituais religiosos e sistemas simbólicos. Paralelamente, na tradição hebraica, o Nome Inefável do Senhor, formado por letras do sistema alfabético hebraico denominado Abjad, tornou-se expressão máxima da transcendência divina. Esta tese propõe uma análise comparativa entre tais fenômenos, explorando como ambos representam limites, equilíbrio e revelação.

Essa reverência expressa o reconhecimento de que o Nome divino transcende a linguagem humana. Apenas o Sumo Sacerdote de Israel, em um momento único e solene, tinha permissão para pronunciar o santo Nome — durante a celebração do Yom Kippur (o Dia da Expiação). Nesse instante, o Nome era invocado como parte do rito de purificação e reconciliação, marcando a comunhão entre o povo e o Eterno. Assim, o Nome Inefável permanece como símbolo de mistério, reverência e presença divina que ultrapassa toda forma de expressão humana.

Iniciando o ciclo de rotação em redor do Sol, iniciamos com a Primavera (Yod), o ponto inicial, a semente, representando o começo do ciclo, a energia concentrada que se expande. Em seguida vem o Verão (He), a abertura e plenitude. 

Assim como o calor e a luz atingem seu auge, o He simboliza expansão, revelação e abundância. Depois vem o Outono (Vav), o elo e a transição. O Vav une e conecta, refletindo o tempo de colheita e passagem, quando o que foi gerado se transforma em fruto e preparação. Por fim, fechando o ciclo e abrindo outro, chegamos ao Inverno (He em segunda ocorrência), representando o recolhimento e o silêncio. Assim como a natureza se recolhe, o segundo He simboliza retorno ao interior, contemplação e espera pelo novo ciclo. Na terra, podemos desenhar o nome inefável do Senhor, começando com o polo sul (yod), equador (primeiro he), polo norte (vav) e terminando no equador (segundo he).

Dessa forma, o Nome Inefável pode ser visto como um espelho do movimento das estações: início, expansão, transição e recolhimento. O ciclo cósmico e o Nome divino se entrelaçam, revelando uma ordem que transcende o humano e une tempo, natureza e sagrado.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.

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