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Tudo que aprendi teve início nos clássicos da Biblioteca Municipal de João Pessoa e nos bolsilivros Bruguera, pequenas edições populares que cabiam no bolso e no orçamento de um estudante curioso.
Anos depois, já inserido nos salões da elite internacionalista, visão reduzida do Circuito Elizabeth Arden, adquiri obras originais na Alemanha, França e Inglaterra, graças à profissão de técnico independente de Testes, Inspeções e Certificações – TIC, que me levava a inspecionar cargas em diversos portos europeus e norte-americanos.
Foi dessa forma que, em Londres, no fim da década de 1980 — quando o Brasil enfrentava hiperinflação e a chamada “década perdida” — eu me deparei com um livro que mudaria minha percepção do surgimento da vida no planeta: Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking. Ali, o jovem cientista britânico retomava a trilha aberta por Einstein.
Se, por um lado, Einstein havia formulado a hipótese de que tempo e espaço são tecidos de uma mesma malha, curvando-se diante da gravidade, Hawking revelava que esse tecido pode se rasgar em singularidades e evaporar em radiação. Ambos nos ensinaram que o tempo não é apenas medida, mas mistério: ponte entre o visível e o invisível, entre o instante humano e a eternidade do universo.
Confesso que, àquela época, eu compreendia pouco do que lia, embora carregasse orgulhosamente aquele livro pela axila, pouco me importando se o seu conteúdo haveria de ser absorvido pela pressão osmótica reversa. E assim, aos poucos, eu fui me aproximando da física quântica, não pela tecnicidade material do assunto, mas pela intuição de que o princípio de tudo poderia se aplicar também à religião, à filosofia, à vida.
Esse princípio, aliás, remete ao instante inicial do universo — o Big Bang — quando tempo e espaço nasceram juntos, inseparáveis. Antes dele, não havia relógio, não havia distância, apenas silêncio. Mas há também o princípio humano: o momento em que a consciência desperta e pergunta “de onde viemos?”. É aí que ciência e filosofia se encontram.
Não resta dúvida de que tempo é movimento. Não é uma constatação teórica, mas uma obviedade latente: sem matéria nem deslocamento desta não há tempo, embora nem mesmo os mais célebres cientistas possa compreender essa realidade por inteiro. Com saber incompleto, traduzem o universo em energia: massa multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado. Até uma rocha guarda energia, e os astrônomos percebem que o universo se expande, que galáxias se afastam há bilhões de anos de uma origem densa e misteriosa.
Por ocasião do meu ensino médio — dividido então entre o Clássico e o Colegial — aprendíamos o essencial sobre a origem da Terra. Diziam-nos que, pela força da gravidade, a energia incandescente se condensou em sólidos: ferro e níquel afundaram no centro, rochas se espalharam pela superfície, gases se acumularam na atmosfera. Depois veio a chuva, e com ela a água que cobriu o planeta e abriu caminho para a vida.
Foi nesse cenário que DNA e RNA começaram a se replicar, que micro-organismos se multiplicaram e mutaram, que plantas e animais surgiram e se transformaram. A vida que precisava mover-se para sobreviver ganhou cérebro; a que não precisava, permaneceu sem ele. Era o básico que nos ensinavam — simples na forma, mas grandioso no significado.
Desassociada da realidade material e confrontando o princípio de tudo, a concepção judaico-cristã da criação do mundo por um ser superior regional nos impôs a espiritualidade sobre a materialidade, sem se ater ao fato de que mesmo o espírito – seja luz ou imaginação – cabe perfeitamente no mundo material. Deus — tradução ocidental do nome inefável — é o criador incriado, origem sem origem, pai de todas as coisas visíveis e invisíveis. Está contido no espírito que nos move e na matéria primordial que sustenta o universo.
Embora, sob certo ponto de vista, se possa chamar a matéria inicial de espiritual, ela se distingue por propriedades únicas. Está situada entre o espírito e a matéria, nessa fronteira onde nasce a dualidade que gera a infinita variedade das coisas — das quais, em verdade, conhecemos apenas uma ínfima parte.
É incorreto reduzir o materialismo a uma simples busca por prazeres e bens materiais. A distinção essencial está em que o espiritualismo afirma que os valores morais do homem são manifestações da vontade de um ser superior, onisciente e onipresente. Já o materialismo, por sua vez, dispensa a ideia de uma criação encenada do mundo, preferindo explicações fundamentadas em processos evolutivos.
Nesse contexto, afasta-se a imposição religiosa e inaugura-se um esforço investigativo voltado às condições materiais concretas. Busca-se explicar os fenômenos que se apresentam à análise — não apenas os físicos, mas também os mentais, sociais e históricos — por meio da observação e da razão. Como todos os que se movem, o humano pode escolher. E pode refletir.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.



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