Violência contra a mulher: entenda o papel dos homens no enfrentamento ao problema

"Bros before hos" ou, em tradução adaptada ao português, "amigos antes das mulheres". A frase é um ditado popular norte-americano utilizado com frequência entre homens jovens para representar o vínculo de confiança existente dentro das relações de amizades masculinas. Para quem usa, funciona como um mantra, um tipo de código de conduta que estabelece uma hierarquia entre as relações na vida de um homem, colocando seus amigos acima de qualquer outra mulher. 

A lógica é simples: priorizar o bem estar do colega e não deixar que nenhuma mulher - seja ela um interesse romântico ou não - atrapalhe ou cause problemas na amizade. Apesar de parecer coisa de adolescente, ou consequência tardia da fase em que os meninos se afastam das meninas para criarem seus “clubes do bolinha”, a frase representa um dos principais dogmas do movimento "masculinista", também conhecido como "machosfera".

Para a cientista social, Liana Lewis, o grupo tende a captar com maior facilidade homens jovens, marcados por um forte sentimento de desgosto contra os signos femininos.

“Essas narrativas funcionam como um amparo para esses homens, que se sentem em uma posição inferior, enquanto as mulheres atravessam um processo histórico de empoderamento, com maior inserção no sistema educacional e uma luta cada vez mais intensa por espaço no mercado de trabalho e por autonomia”, destaca.

Para eles, o feminismo significa um retrocesso nos próprios interesses. As pautas masculinistas operam a partir de narrativas que minimizam ou negam a existência da violência contra mulheres, questionam políticas de equidade de gênero e reforçam estereótipos abusivos de masculinidade. Incentivando um cenário onde a mulher deve ser considerada inferior e se posicionar como submissa ao homem.

“Essa ideologia reposiciona o homem nesse lugar simbólico de superioridade, atuando como uma forma de conforto para uma comunidade que se sente, ainda que não fisicamente, agredida pela percepção distorcida de perda de um lugar historicamente associado ao privilégio e ao poder”, reforça Lewis.

Se o destrinchar da questão ainda não deixa óbvio, aqui vai uma explicação mais direta: a lógica masculinista é o ponto de partida da violência contra a mulher e termina, na grande maioria das vezes, em feminicídio. No centro do problema estão os homens.

“Os discursos masculinistas tendem a atrair homens jovens, marcados por isolamento social e dificuldades de socialização. Outro sinal de alerta é a adoção de falas agressivas ou misóginas contra mulheres. Mesmo quando não resultam em ações concretas, esses discursos deslegitimam a humanidade feminina. Manifestações desse tipo, ainda que tratadas como brincadeira, não devem ser naturalizadas. Elas funcionam como uma autorização simbólica para a violência e precisam ser observadas com atenção”, afirma a cientista.

O psicólogo e mestre em psicologia da saúde, com atuação no enfrentamento da violência contra a mulher, Sávio Macêdo também concorda que a vulnerabilidade da juventude é o momento crucial para a solidificação do pensamento masculinista e machista.

“Essas reações são reflexo de um código de ação baseado na violência, que se desenvolve ainda na pré-adolescência, naquilo que a psicologia chama de pele psíquica, uma espécie de casca construída socialmente. É a chamada 'casca de macho', que impede o homem de falar sobre suas dores, medos, raiva ou inveja, fazendo com que ele resolva tudo por meio da violência e do ódio”, explica.

“É preciso incentivar o indivíduo para sentir, dialogar, reconhecer o medo e a raiva", explica Sávio Macêdo. Foto: Divulgação
Ele explica que é preciso resgatar os meninos e homens da lógica reativa, abrindo espaço para que a sensibilidade - geralmente atribuída às mulheres dentro da lógica patriarcal -, seja valorizada e não menosprezada.

Folha Pernambuco Foto Agencia Brasil