Artigo - Será que "Dona Eugênica" tem razão?

O dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) serve para nos lembrar que o Combate ao Racismo deve ocorrer todos os dias e em todos os momentos.  

Por que que um ser humano deve ser julgado e escrachado por conta da cor de sua pele? Será que a cor da pele de alguém é o que determina a sua essência enquanto ser humano? 

Desde que o ser humano surgiu no continente africano que tem ocorrido uma contínua devastação amoral na sua própria existência. Entretanto, de alguns séculos para cá tem havido uma intensificação do racismo, da segregação e do preconceito referente a cor das pessoas.

Alguns malucos europeus, algum século atrás, propuseram uma teoria chamada Eugênia, que, afinada com o arianismo de Hitler (2ª Guerra Mundial), tentaram fazer com que os seres humanos fossem apenas brancos e preferencialmente de olhos azuis ou verdes. Entendiam que a raça negra deveria ser extinta. Se a riqueza do planeta está justamente na diversidade, por que então uma única raça? 

A teoria Eugênia chegou a ser colocada em prática no próprio Brasil, quando os Governos pré-republicano - e mais ainda o republicano, incentivaram a substituição da mão de obra escrava no pós Lei Áurea (lei esta que só foi promulgada por causa da pressão de países como a Inglaterra) pela dos muitos imigrantes europeus (italianos, alemães...) para além de dar sustentação para à “roda da economia” cafeeira, também “embranquecer” a população no/do país. Afinal, para o governo e as elites brasileiras, os negros não serviam mais. Como já não serviam por não mais serem escravos, a partir de então deveriam ser colocados à margem da economia, e mais ainda: da própria “sociedade” – como ocorre até hoje.  

Além dos judeus e ciganos, os negros também foram um dos alvos preferidos na busca pela raça Ariana (raça “pura”) por parte do Nazismo de Hitler durante a Segunda Grande Guerra Mundial, sendo esta ação, mais uma da Teoria Eugênia.  

A própria escravidão dos negros no Brasil (e em outros países) utilizou-se da mão de obra escrava como “motor” de economia colonial durante mais de trezentos anos, com os negros sendo tratados como qualquer tipo de animal, sofrendo jornadas de trabalho de até dezesseis horas, na maioria das vezes em situações de pura insalubridade. Quase sempre não sobreviviam mais do que cinquenta anos em suas idades e foram separados de suas famílias já quando eram trazidos da África.   

Graças a ações como a do líder Zumbí (que nasceu em 20 de novembro – por isto ser este o Dia da Consciência Negra), que auxiliou a criar quilombos, que servia como escape daquela situação de escravidão, é que o penoso sofrimento daqueles negros foi amenizado. Considerável também é suas influências para nossas atuais Cultura, como a criação da própria feijoada, que foi criada a partir dos animais consumidos pelos fazendeiros, que entregavam aos negros os “restos”. 

A seita norte americana Ku Klux Klan foi (e ainda é, mesmo que menos intensa) é um dos mais nocivos exemplos das tentativas de supremacia impositiva ultra racial e segregacionista. Tal organização chegou até a assassinar (também enforcados) inúmeros negros nos Estados Unidos da América, como é descrito na belíssima música “Strange fruit” (Fruta estranha), que tem sua letra baseada em um poema de Abel Meeropol e utliza-se de metáfora para descrever a situação de negros enforcados nas árvores (eis aí as “frutas estranhas”) e o cheiro de carne queimada. Tal música foi gravada também por Billie Holiday.

Lutas contra a segregação, o racismo e o preconceito são notórias e referenciais, como as de Zumbi dos Palmares (1655-1695); a de João Cândido Felisberto (o Almirante Negro) – ambas no Brasil; as de Martin Luther King Jr. no Estados Unidos da América; e a de Nelson Mandela na África do Sul. Aqueles foram líderes que deram o norte necessário para as contínuas ações que devem ser feitas assiduamente no combate a este infindável mal – o racismo.

A imposição cultural e religiosa sofrida pelos escravos foi extremamente nociva à preservação de seus valores oriundos de sua pátria natal - a mãe África, sendo que sofreram (e ainda sofrem) forte repressão para se desligarem de suas práticas religiosas, em religião como o Candomblé, que ainda hoje é tido como “coisa do diabo”.        

Ao longo da própria história tivemos (e ainda temos, só que mais “discreta”) práticas absurdas realizadas por quem acha-se “melhor” por ter suas peles e olhos claros, haja vista o racismo que, infelizmente, ainda está impregnado em diversas sociedades; e no Brasil muitas vezes é disfarçado e também estruturado, como bem expõe a contemporânea filósofa paulista Djamila Ribeiro.  

Os negros historicamente têm produzido pérolas maravilhosas também nas Artes, como na música, em que estilos musicais como o Blues dos afro-americanos nos EUA do final do século XIX (de Artistas como William Christopher Handy - W.C. Handy - considerado o "pai do Blues"; Robert Johnson); o Rock`n roll (de Artistas como Sister Rosetta Tharpe - considerada a "Mãe do Rock and Roll"; e Chuck Berry); o Funk (de James Brown); o Chorinho (de Pixinguinha); o Samba (de Adoniran Barbosa, Noel Rosa); o Reggae (de Bob Marley); o Jazz (de Buddy Bolden); o  Soul (de Sam Cooke, Ray Charles, James Brown); Gospel (de Thomas Andrew Dorsey), entre outros. 

É obvio que aqui não cabe a descrição da importância de todas as produções culturais e científicas produzidas pelos negros brasileiros, entretanto alguns nomes estarão descritos para que possam evidenciar tal assertiva; sendo que da listagem, nem todos estão mais entre nós fisicamente. Nomes como o de Machado de Assis (escritor), Alcione (cantora), “Grande” Otelo (ator), Vanessa da Mata (cantora, compositora e escritora), Gilberto Gil (cantor e compositor), Yzalú (cantora, compositora, violinista e intérprete), Elza Soares (cantora), Ubijara Fidalgo (escritor), Ruth de Souza (atriz), Seu Jorge (cantor, compositor e ator), BK (compositor, escritor, rapper), Taís Araújo (atriz), Xamã (rapper), Quézia Silveira (ilustradora), Iza (cantora e compositora), Carolina Maria de Jesus (escritora), Wilson Simonal (cantor), Preta Gil (cantora e atriz), Jacqueline Góes de Jesus (cientista), Negra Lí (cantora, compositora e rapper), entre outros. 

“Bandido bom é bandido morto!” Será mesmo? É o “alguém” que se torna “bandido”, ou o mesmo pode ser uma consequência da estrutura social de exclusão? Qual a cor da pele predominante nos “bandidos”? Como os negros ex escravos foram forçados a viverem, principalmente no pós Lei áurea? O Estado lhes ofereceu a necessária atenção, à época? Sabe-se que simplesmente eles ficaram à margem da sociedade de então e tiveram que viver através de trabalhos considerados sub emprego, como até hoje grande parte deles assim vivem. Os negros tiveram (ou têm) o necessário acesso à Educação Formal, por exemplo? Ou a própria escola reflete a estratificação social vigente? Neste aspecto, é notório o excelente trabalho educacional que é feito em escolas e colégios público - como o da equipe do Colégio Modelo  Luís Eduardo Magalhães de Juazeiro-Ba -; o que é demonstrado pelas ações, também extra classe, de seus educandos.    

Ainda hoje se ouve frases, até nos espaços educacionais, que deixam expostas a premissa de extremo racismo, como: “a mulher daquele professor é linda, é branca!” (como se só fosse linda porque é branca); ou “ele é um negro lindo” (como se aquele negro fosse uma exceção ou se a beleza fosse exclusiva para pessoas não negras); ou “só podia ser preto” (quase sempre quando é sobre algo que seja muito ruim). Contraditoriamente, diversas são as mulheres, principalmente as loiras, que deixam subentendido de que os negros só são bons para elas, na “virilidade”; e olhe que tal afirmação nem é misoginia. 

Políticas governamentais de cunho protetivo, como o sistema de Cótas, são necessárias sim, pois “o duelo intra social” em si não é capaz da realização da equidade socio econômica; haja vista os índices de analfabetismo, que demonstram que a imensa maioria dos analfabetos é de pessoas negras. 

Portanto, é necessário que o combate ao racismo, à segregação e ao preconceito racial seja algo contínuo. 

Donizete Menezes é Graduado em Pedagogia, Filosofia, História e Sociologia; Pós Graduado em Filosofia, História, Sociologia, Ciências Sociais e em Gestão Pública Contemporânea; esteve Secretário de Cultura e Juventude em Juazeiro-Ba.