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Confira o conto Ruínas. Texto da professora Clarissa Loureiro mestre e doutora em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
É professora na Universidade de Pernambuco (UPE) onde atua nas áreas de Literatura Comparada e Estudos Culturais, com orientações e artigos publicados. Além disso, tem os livros de contos Mau Hábito ( 2010), Invertidos ( 2013) e Náufragos ( 2023) e o romance Laurus(2020). Todos os livros se identificam pela realização de uma prosa poética, representativa da Literatura Feminina.
Toda Família de perto é igual, mas a minha era mais pesada porque era a minha. E quem pode carregar o peso de sua Família? A voz se tornara a do meu pai. Era um homem que carregava a aspereza de pedra nos olhos, herdada entre-gerações. Pouco falava, menos ainda com os filhos. Ensinara à Família o silêncio da mesa de jacarandá no centro da sala, cuja cabeça seria a dele, assim como a primeira colherada. Por mais que se falasse naquela casa, pouco se dizia. E se se dizia, eram nos quartos com suas portas semi-abertas, pois meu pai não as permitia trancar, até que as arrancou uma a uma.
E, assim, a Família foi se tornando banguela, com seu riso espontâneo castrado, tal qual o existente nas fotografias de muitas Famílias envelhecidas pela convivência. E minha mãe se tornou a sua maior mentora. Aprendera a jogar com a surdez gradativa de meu pai. Quem pouco ouve, pouco vê. E assumiu a condição de olhos da Família. Vira o que de pior há dentro de cada filho. Observara seus ecos pelos corredores, seus vazios de alma, consumidos nos pratos improvisados nas cozinhas à noite e nas suas insônias de leitos desarticulados. Conhecia-os. E de tanto conhecê-los, aprendera a torná-los os membros costurados a sangue e a dor àquele gigante sombrio que era a Família. Era pelas feridas que aqueles membros ainda se uniam àquele corpo, apodrecido cada vez que tinha que respirar por muitos.
Éramos quatro. Dois pés. Dois braços. Nunca entendi como a ordem se invertera. Os mais novos se transformaram nos pés e os mais velhos nos braços inúteis ao cotidiano dos pais. Só com o tempo, descobriria que a Família precisa da dependência para continuar. Os mais novos sustentavam o peso do desejo dos pais e os faziam se locomover. E, por isso, tinham seus próprios quartos e luxos em função da harmonia do lar. Era uma troca, como deve ser o funcionamento de um corpo. Só nunca aprendi a trocar, só a me dar ou a me negar, tão gratuitamente como são as ações de quem não tem nada a perder ou a ganhar. Talvez, por isso, tenha me tornado um braço tão diferente de minha outra irmã. Ela aprendera a fingir como a minha mãe.
“Minha filha, toda mulher consegue o que quer, na ilusão de que faz o que outro espera”. Esta era a corrente que identificava mulheres entre-gerações: o simulacro do sexo frágil. E, assim, me tornei o braço que, com o passar dos anos, negava-se em se acoplar àquele corpo desfigurado. Era o membro independente e egoísta por existir além do corpo. Tudo seria mais fácil, se a Família não me impusesse a profecia de que eu também seria podada, mutilada, despedaçada. E fez isso, colocando-se na condição de ciclope diante de mim, evocando a presença de todas as outras famílias anteriores a nós, saídas do Tártaro, como titãs. E o encontro aconteceu, dentro de ruínas onde nós éramos personagens de uma tragédia grega, cujo motivo era o nascimento da primeira neta dos meus pais que a Fortuna gerou no meu corpo solteiro, braço sangrando que sempre se expulsou e que agora era intimado a ser costurado ao gigante. E temos um berço no centro das ruínas e ao redor dele: eu (braço sangrando), minha família na alegoria do gigante e meus ancestrais (côro de famílias).
Família: A criança que nasce na esterilidade é a flor na pedra, o vento que expulsa as nuvens no céu.
Braço sangrando: A criança é a maior ilusão de que você persiste, quando, na verdade, é a confirmação de que o antigo precisa morrer para que o novo se firme, além dos vícios e das feridas do outro.
Família: Um organismo não sobrevive sem ser absorvido por outros. É a lei da Natureza.
Côro de Famílias: Assim sempre foi. Assim sempre será.
Braço sangrando: Eu sou aquele galho que se afastou da terra em direção ao céu, para que possa pousar minha criança e, assim, ela possa voar, sem ser tragada por você, com seu chão e suas raízes.
Família: Todo galho mais alto de uma árvore se sustenta a partir de uma raiz que antes dele pré-existiu. E todo galho será a mesma raiz que tragará outros galhos para a terra. Essa é a lei da Natureza.
Côro de Famílias: Assim sempre foi. Assim sempre será.
Braço sangrando: Eu sou aquele braço que rasgou todas as veias que me prendiam a você. E, por isso, devo sangrar por toda a eternidade, deixando gostas de vida por onde passo. Minha filha bebe desse sangue para não ter que sentir a dor da espada em sua alma.
Família: Tua maternidade te prende a nós. Teu sangue é a apenas o peso do orgulho de que és parte viva de nós. E a nós deve se submeter. Tua dor é a do deserdado que se expulsou de sua pátria, mas dela não saiu. E tantos viveram e nunca se desraizaram.
Côro de Famílias: Assim sempre foi. Assim sempre será.
Braço sangrando: Sou única e assim será minha filha.
Família: Se és mãe, serás como a tua e todas que agora te olham.
Côro das Famílias: Assim sempre foi. Assim sempre será.
Braço sangrando: E se eu me negar?
Família: Afogarás sua filha em qualquer rio? Ou beberás da água do Late, entregando-se ao esquecimento de sua vida como fez Ulisses, Ajax, Orfeu, Agamenon, para começar uma nova, deixando a criança para nós? Diga, o que farás para ser livre de suas raízes?
Engasgo-me. Às vezes, o silêncio são os vazios da fala, gritando de medo. E para ter o direito de existir além do gigante, entrego-me às mãos do côro que se desfaz. Mulheres de várias épocas e idades aparecem sobrevoando-me e derramando sobre a minha cabeça uma água gelada e transparente do Late. Enquanto homens cortam e raspam os meus cabelos que descem ao chão, assim como as minhas roupas, até a completa nudez de mim. E, então, espanto-me:
Mulher desnuda: Não posso!
Mulheres do côro: Por quê?
Homens do côro: Por quê?
Mulher desnuda: Porque sou parte indissociável dela, tal qual Deméter é de Perséfone. E nem o esquecimento poderá apagar a parte de uma na outra.
Família: Assim seja feita a nossa vontade
Côro de famílias: Assim seja feita a nossa vontade.
Todos se diluem. E só resta uma antiga foto em preto e branco. Nela, ao centro, uma mulher bela olha para um bebê que tem seu rosto virado para um homem de barbas negras e gestos suaves que pousa as mãos sobre a mulher e sorri espontaneamente para a menina. Os mais velhos não olham. Encontram-se do lado esquerdo e direito. Parecem evitar a máquina de fotografar como se evitassem que suas almas fossem fotografadas. É uma foto perdida numa gaveta de uma casa cujos donos já morreram. Nela, encontra-se guardada a alma dos meus pais e um pouco da minha, quando olho para a minha filha. Nela, estão a Família e suas vozes que se libertam, quando os titãs adormecem. E quem sabe, nestes instantes, um braço sangrento acople-se a um corpo com a mesma singeleza que um homem tocava a esposa e olhava para a sua primogênita naquela foto.
*Clarissa Loureiro mestre e doutora em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professora na Universidade de Pernambuco (UPE) onde atua nas áreas de Literatura Comparada e Estudos Culturais, com orientações e artigos publicados. Além disso, tem os livros de contos Mau Hábito ( 2010), Invertidos ( 2013) e Náufragos ( 2023) e o romance Laurus(2020). Todos os livros se identificam pela realização de uma prosa poética, representativa da Literatura Feminina.



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