Especialistas cobram mais rigor contra falsificadores de bebidas

A combinação entre punições brandas e lentidão judicial tem criado um terreno fértil para a adulteração e falsificação de bebidas no Brasil. Mesmo com leis que preveem penas de até oito anos de prisão, o baixo risco de punição estimula o crime e coloca em risco a saúde da população. Os recentes casos de intoxicação por metanol evidenciam o problema: são 16 confirmações e mais de 200 suspeitas no país.

Para o advogado criminalista Arthur Richardisson, especialista em Direito Penal Econômico e Empresarial, o problema está na ineficácia da responsabilização e no baixo custo jurídico do crime. "A lei é suficiente, falta aplicá-la com rigor. O artigo 272 do Código Penal prevê a punição da falsificação de alimentos e bebidas com prisão de quatro a oito anos e multa, atingindo toda a cadeia de produção, distribuição e venda", explica.

Segundo ele, penas brandas e demora nos processos são incentivos para o crime. "A dificuldade na produção de provas técnicas, somada à lentidão do Judiciário, muitas vezes, torna a punição morosa, compensando o crime financeiramente, pois anula o efeito dissuasório da pena", afirma o advogado.

Em meio à escalada dos casos de intoxicação, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou, na última quinta-feira, o regime de urgência para o projeto que torna crime hediondo a adulteração de alimentos ou bebidas com substâncias que possam causar risco à vida ou grave ameaça à saúde. A urgência permite que o texto seja votado diretamente no plenário, sem passar antes pelas comissões. O crime hediondo é inafiançável e insuscetível de graça, indulto ou anistia, fiança e liberdade provisória.

Richardisson avalia que o avanço é positivo, mas insuficiente, se não houver reformas estruturais. "Mais do que aumentar a pena, é preciso garantir que ela seja aplicada. A efetividade da punição é o que realmente inibe o crime. Fortalecer a perícia oficial, criar um sistema nacional de rastreabilidade e impor deveres de remoção de conteúdo às plataformas digitais seriam passos concretos nesse sentido", conclui.

A diretora da Vigilância Sanitária do DF, Márcia Roseno, alerta que as bebidas sem registro representam um grave risco à saúde pública. "As bebidas sem procedência, clandestinas ou artesanais, são um risco. Não sabemos o que tem ali dentro, elas não possuem registro. Podem até parecer boas, mas não dá para saber. É importante que a população esteja atenta a esse tipo de produto, comum em todo o país", afirma.

Sintomas de intoxicação por metanol
Dor de cabeça
Náusea
Dor abdominal
Tontura
Visão turva (embaçada)
Alterações do sistema nervoso central como sonolência, tonturas, confusão mental
Sintomas avançados

Cegueira
Convulsões
Coma

Correio Braziliense Foto Prefeitura DF