Mais que um aniversário: a batalha do Rio São Francisco contra a inadimplência e as mudanças climáticas

No dia em que o Rio São Francisco celebra 524 anos de sua descoberta, em 04 de outubro, a bacia que sustenta a vida de 21,5 milhões de brasileiros ainda enfrenta desafios ambientais e de gestão sem precedentes. Diante desse cenário, a Diretoria Executiva do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e os coordenadores das câmaras regionais refletem sobre o presente e delineiam caminhos para garantir um futuro mais justo e sustentável para o Velho Chico, em sintonia com as expectativas que se voltam para a COP 30.

Em meio às reflexões da data, o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar, ressalta três prioridades estratégicas para a gestão: elevar o Comitê a um novo patamar político, avançar no reconhecimento do Rio São Francisco como sujeito de direito e fortalecer a política nacional de recursos hídricos.

Ademar defende a busca por financiamento internacional e o papel do Comitê como “ponte para buscar recursos”, além de reverter a alta taxa de inadimplência. Ele afirma que transformar o rio em “sujeito de direito”, uma iniciativa com precedente em outros países latino-americanos, seria um legado significativo.

A meta é que o Comitê recupere seu espaço no debate nacional para fortalecer a política de recursos hídricos no Brasil.

Nesse sentido, para Altino Rodrigues, vice-presidente do CBHSF, a solução para os problemas da bacia não está em ações isoladas, mas em um planejamento estratégico focado. Ele elenca desafios urgentes: revitalização, contingenciamento de recursos oriundos da cobrança pelo uso da água, o crescimento da inadimplência e a necessidade de revisão do Plano Diretor de Recursos Hídricos (PDRH) para garantir maior integração. Confira reportagem na integra-Juciana Cavalcante-CHBSF.

Rodrigues expressa confiança na nova diretoria, afirmando que já existe uma grande sintonia entre os membros, que há muito tempo vivenciam as pautas do São Francisco. A meta é fortalecer a articulação e o diálogo com parceiros para alavancar ações que cumpram as metas do plano estratégico. “Muito embora as mudanças climáticas estejam sendo discutidas mais enfaticamente nos últimos anos, o CBHSF já vem atuando há anos com ações que visam melhorar a convivência em territórios que sempre estiveram à mercê de extremos”, afirma o vice-presidente. Ele também menciona estudos preocupantes que mostram a perda significativa do espelho d’água na bacia e o avanço da desertificação em algumas áreas do semiárido, somados à destruição de biomas como Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.

Em relação à COP 30, que acontecerá no próximo mês em Belém, Pará, a expectativa é promover debates para evidenciar a importância dos comitês de bacia na gestão dos recursos hídricos, buscando parcerias para avançar na missão institucional. Para Rodrigues, a esperança é fruto do trabalho e da união de forças entre a sociedade civil, usuários, poder público e parceiros, para “resgatar a vitalidade do Velho Chico.”

Para a secretária-executiva do CBHSF, Rosa Cecília, os maiores desafios desta nova gestão são fortalecer a integração e ampliar a representatividade, com planejamentos que assegurem o sentimento de pertencimento de todos os envolvidos.

“Nossa conexão com a agenda global de mudanças climáticas é fundamental. A COP 30, em Belém, será uma oportunidade para levarmos a discussão sobre o quantitativo e a qualidade da água dos nossos rios e mananciais. A variação das chuvas, seja pela falta ou pelo excesso, interfere diretamente na quantidade e na qualidade da água, e essa é uma discussão mundial. Precisamos refletir sobre a água que temos a oferecer a uma população que cresce a cada dia e demanda esse recurso para todos os usos, não apenas para beber”, afirmou, lembrando que “no dia do aniversário do Velho Chico, precisamos de uma grande reflexão. O rio merece o nosso respeito e cuidado. Nós, que temos a capacidade de raciocinar, devemos agir de forma diferenciada para preservar nosso rio. O melhor para o Velho Chico é o melhor para todos nós.”

CHBSF/Juciana Cavalcante Foto ilustrativa Irpaa