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ARTIGO – OS BONS TEMPOS DO FIO DO BIGODE II

10 de May / 2015 às 23h00 | Espaço do Leitor

“Ainda bem que a memória não permite que histórias tão pitorescas e que realçam as características de firmeza, caráter, dignidade e honradez de um povo, sejam levadas como pó pelos ventos do esquecimento e depositadas sob a penumbra inexorável do passado ou simplesmente deletadas, como se diria na linguagem moderna dos nossos dias. (Artigo 78 - OS BONS TEMPOS DO FIO DO BIGODE I, do autor - Blog Geraldo José, Edição de 27/10/2013).

Os tempos nebulosos que vivemos nos dias de hoje trazem preocupações de toda ordem à sociedade, seja no campo político, econômico ou social, seja na batalha diária de cada cidadão pela preservação da família e na dedicação incansável para dar aos filhos uma formação inspirada em sólidos princípios éticos e morais.

O hábito hoje consolidado de descumprimento da palavra dada, fizeram-me trazer à lembrança o artigo 78, editado em outubro/2013, do mesmo título, no qual dei realce a uma história simples, ocorrida há décadas, nos primórdios da região de Irecê. Para que o leitor entenda o sentido da continuidade do tema (II), permita-me revigorar essa breve história: quando um dos coronéis da tradicional família Dourado, vindo de Brotas de Macaúbas, após visitar familiares que migraram para Irecê, despediu-se cheio de saudades e assumiu um compromisso com o Coronel João Dourado que aqui ficava, de voltar um ano depois para um reencontro ali na caatinga, ao pé daquela Umburana, onde se despediam. Era tamanha a sua confiança na palavra do amigo coronel que no dia em que completava um ano da promessa, (não havia correio, nem celular...), mandou que preparassem o café para o seu amigo, e com toda a família e empregados seguiram em séquito na direção da tal Umburana. Como o Coronel ouvia que alguém murmurava não acreditar naquela promessa, ergueu-se decidido e respondeu:

- O que você falou?  Você acha que o compadre não tem palavra?  Você quer vê? - Caminhou um pouco e gritou:

- Ôôô... compadre! - Já na curva da estrada, o compadre respondeu:

- Tô chegando, compadre!

Exemplo fantástico como esse tem de ser relembrado. Era o tempo em que o “fio do bigode” era respeitado, reverenciado, e não se exigia a assinatura do homem como garantia de que a promessa seria cumprida. Hoje... o que se vê? O cidadão assina o documento, pede-se duas testemunhas e o aval de alguém é logo exigido, se título de crédito; às vezes, um não é suficiente e são pedidos dois avalistas; mas há, ainda, a situação bancária, em que se exige a FIANÇA no contrato e a esposa é obrigada a assinar dando a “outorga uxória”!

Descumprir e desonrar o nome pessoal virou uma prática já inserida na cultura brasileira. Não honrar acordo político? A justificativa é imediata: “EM POLÍTICA É ASSIM; VALE TUDO...”.

Mas, pasmem os leitores! No Congresso Nacional, a Constituição Federal exige um terço de assinaturas (27 no Senado e 171 na Câmara) para que uma Petição esteja habilitada a requerer a formação de uma CPI-Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar algum tipo de suspeita de irregularidade. Mas o que é normal acontecer? Simplesmente deputados e senadores podem retirar os seus nomes até a meia noite do prazo final, mesmo que a Petição já tenha sido entregue à Mesa ou lida nas respectivas Casas, e com isso inviabilizam o pedido por falta de número legal...! E o que os conduziram a essa atitude de desonra à integridade do cargo? Talvez uma negociação dissimulada do Governo com a oferenda de cargos ao Partido para afilhados políticos ou liberação de alguma verba orçamentaria...!  Uma vergonha! Tudo isso permitido pelo Regimento...

Como exemplo recente, temos: a) a CPI do Senado para apurar irregularidades nos Fundos de Pensão, na primeira tentativa: seis senadores retiraram as assinaturas; felizmente, na noite da última quarta-feira, 06/05/15, essa CPI foi finalmente aprovada, com o número mínimo de 27 assinaturas! b) a CPI do BNDES, no Senado: também seis senadores retiraram as suas assinaturas e inviabilizaram o pedido; não é possível continuar intocável essa caixa-preta do BNDES que está com um rombo de 30 bilhões de reais, por investimentos em empresas vinculadas ao Lava Jato, em Cuba e na Nigéria, além da farsa nacional daquele travestido de bilionário, chamado Eike Batista; c) a CPMI-Comissão Mista da Câmara e Senado para investigar verbas federais que alimentam o MST: 45 deputados retiraram as assinaturas; a autora do pedido, a então Deputada Kátia Abreu, hoje Ministra da Agricultura, declarou: “É inacreditável, inconcebível, um parlamentar de qualquer país desenvolvido retirar a assinatura depois de dar. É uma desonra, um vexame”.

Como imaginar que uma assinatura aposta num documento tão importante por um Deputado ou Senador da República possa ser retirada por uma simples SUSPEITA DE MUDANÇA DE IDEIA! No mínimo, isso se caracteriza como uma fraude legalizada e tem o poder de passar à população um péssimo e triste exemplo. Então, que saudade dos BONS TEMPOS DO FIO DO BIGODE...!

Autor:   Adm.  Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador – BA.

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