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ARTIGO – BRASIL: UMA NAU À DERIVA?

12 de Apr / 2015 às 23h00 | Espaço do Leitor

Há uma expressão muito usual e popularmente aplicada para definir grupos de pessoas desorientadas, entidades desorganizadas ou governos sem rumo de gestão: "Está mais perdido que cego em tiroteio...". Com todo o respeito que merece a instituição Presidência da República, pela qual tenho muito respeito, é impossível silenciar diante do momento catastrófico que a nação brasileira assiste de absoluta falta de comando, até mesmo no que seria a mais elementar missão, qual seja a de constituir os quadros de administração e assessoria.

É impressionante como o governo denuncia enorme fragilidade na nomeação de nomes sem o perfil de competência para cargos importantes da equipe ministerial. Recordo-me que em 2012, após tomar posse como Ministro da Pesca e Aquicultura, o Senador Marcelo Crivela deu uma entrevista, entre risos: “Não sei nem colocar minhoca no anzol...”.

Isso reflete a triste realidade de que o governo vive em permanente submissão às exageradas pressões políticas de uma inconstante e infiel base partidária, reveladora de que os partidos fingem que apoiam e a presidente finge que acredita nesse apoio. Basta ver que o segundo maior partido da base do governo – o PMDB – que é presidido nacionalmente pelo Vice-Presidente da República, tem nos seus dois filiados mais representativos como presidentes da Câmara de Deputados e do Senado Federal, os dois maiores líderes da oposição a esse governo!  É visível que estamos diante de um histórico engodo político cujas dimensões e consequências tem um elevado preço, e que recairá fatalmente sobre o povo brasileiro, uma vez que a sensibilidade de políticos desse tipo passa pelo próprio bolso de cada um.

Nos últimos dias tem-se assistido a uma sequência de atitudes indecisas da presidência, na tentativa de dar um norte político ao governo. Um petista histórico, como o Chefe do Gabinete Civil Aloisio Mercadante (PT-SP), ex-Ministro da Educação, era o homem encarregado da articulação política entre o governo e a oposição. Embora desfrutando da simpatia pessoal da presidente, parecia não lê muito na cartilha do Lula. De repente, a presidente convida e nomeia o Deputado Pepe Vargas (PT-RS) para assumir a Secretaria de Relações Institucionais, com a missão de ser o seu porta-voz político, aí já desprestigiando o Mercadante. Não durou muito e logo corre na imprensa notícias de que o Eliseu Padilha (PMDB-RS) já estava sendo consultado para substituir o Pepe Vargas, e não aceitou. Para amenizar a provável insatisfação do Vargas, que tomou conhecimento através da imprensa, lhe é oferecida a Secretaria de Direitos Humanos ocupada por outra petista de quatro costados, a Ideli Salvatti. Como a nau continuava à deriva, a presidente partiu para uma solução que me parece suicida, ao escolher do fundo da cartola o nome do Vice-Presidente Michel Temer como o elo que faltava nessa corrente, e será ele o seu articulador político único e definitivo. Justificando o clima de confusão existente no planalto, o Pepe Vargas declarou: “Ela fez uma opção política, porque ela acha que, se não colocarmos o PMDB ali, não vamos ter sossego nunca”. Triste verdade!

Visto que ao longo desse período de instabilidade política - conforme já comentei anteriormente -, o Michel Temer foi um parceiro de chapa que permaneceu mudo e apático, e nenhuma contribuição ofereceu até agora para atenuar as pressões do seu próprio partido contra a presidente que o elegeu a tira colo, a sua escolha para a missão de apagar o incêndio político provocado pelos seus correligionários da legenda não sinaliza ter sido o melhor caminho mas oferece algumas nuances que podem redesenhar um novo cenário político: a) Se não o fez até agora, será pouco provável que ele tenha liderança ascendente sobre os líderes rebeldes Eduardo Cunha e Renan Calheiros, além de outros; o eventual insucesso nessa missão que lhe foi outorgada, vai deixá-lo desmoralizado politicamente; b) Supondo que obtenha êxito, que acalme os ímpetos de independência dos rebeldes peemedebistas e reconquiste a fidelidade partidária ao governo, ele sai do episódio engrandecido mas, ao mesmo tempo, poderá acender uma luzinha perigosa de vontade de Poder! c) Seguramente, não é isso o que o papa petista Lula deseja.

Como se não fosse suficiente esse desequilíbrio político, em que se evidenciam variados conflitos de interesses pessoais e corporativos, a nação está atônita com a diversidade de idiomas da comunicação entre a Presidente e seu Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. No primeiro momento, ele fez críticas a alguns atos econômicos do primeiro governo da presidente, chamando-os de “muito grosseiro'', “uma brincadeira''. Agora, declarou que a presidente “nem sempre faz as coisas de maneira eficaz”. Ora, somente um governo com a autoridade debilitada pode admitir críticas do próprio ministro e ainda correr em sua defesa, dizendo ter sido ele “mal interpretado”.

A nação brasileira espera com ansiedade que os motivos dessa nau estar à deriva, sejam provocados apenas por uma breve tempestade, e não pelos perigos de um mar revolto. Que as transformações de caráter, responsabilidade e compromisso de todos com os objetivos nacionais, correspondam às águas tranquilas que a nau Brasil necessita para voltar a navegar com segurança na direção do seu destino.

Autor:   Adm.  Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador – BA.

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