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Artigo – QUANDO A EDUCAÇÃO DOMÉSTICA É CORROMPIDA

16 de Nov / 2014 às 23h00 | Espaço do Leitor

“Chamamos de ÉTICA, o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando, chamamos de CARÁTER”. - Oscar Wilde.

Geralmente é incorreto o entendimento das pessoas quanto ao significado de “corrupção”, focado na compreensão de estar identificado, unicamente, nas práticas pouco ortodoxas de certos funcionários públicos, quando usam do poder decisório ou de intermediação que ostentam para beneficiar-se de vantagens ilegítimas. É o que se definiria como “corrupção política”. Numa definição mais ampla corresponde “ao uso do poder público para proveito, promoção ou prestígio particular, ou em benefício de um grupo ou classe, de forma que constitua violação da lei ou de padrões de elevada conduta moral” (SIMÃO, Calil, Improbidade Administrativa). São muitas as variáveis de padrões de comportamento que se incluem no universo da corrupção, como o suborno, extorsãofisiologismo,  nepotismo,  clientelismo, corrupção  e peculato.

Segundo o mesmo autor Calil Simão, calcula-se que a corrupção no mundo envolva mais de 1 trilhão de dólares americanos, por ano, em cujo montante o Brasil certamente participa com razoável capital. Quando num país a prática de corrupção seja considerada descontrolada, é conhecida como uma cleptocracia, cujo sentido literal é “governado por ladrões”. Ainda prefiro considerar que não seja o caso do Brasil, vítima apenas da disseminação de uma praga, quase epidêmica, mas que já vem sendo combatida pela dignidade de algumas autoridades, a exemplo do ex-ministro Joaquim Barbosa e do Juiz Federal Sérgio Moro e muitos outros anônimos que, tenho certeza, assim se comportam no desempenho de suas funções.

Conquanto seja predominante a concepção de que a corrupção somente existe no universo político, onde, na verdade, hoje ela viceja de forma já institucionalizada, a sociedade se depara com diversas formas de corrupção, bastando entender que para que a ação se concretize sempre estarão presentes dois tipos fundamentais: a) o agente da corrupção ativa (aquele que oferece e/ou dá dinheiro); b) o agente da corrupção passiva (aquele que pede e/ou recebe dinheiro). Nos tempos passados, o agente privado atuava com certa discrição no acesso ao agente público para propor algo que fugisse aos padrões de correção, até mesmo temendo uma recusa ou comprometimento. Com a evolução dos tempos surgiu a figura do “lobista” ou intermediador, que já poupa o constrangimento e o risco ao agente privado, e assim as negociações alcançaram o ápice do aperfeiçoamento e são fechadas nos bastidores dos gabinetes oficiais, com toda a honestidade e lisura, salvo a surpresa da existência de uma câmara oculta! Daí, quando o escândalo explode na imprensa – que tem a eficiência incontestável de tudo descobrir através da “reportagem investigativa” – o acusado se apresenta na televisão com um perfil de santidade papal, falando até com deslumbrante empáfia que vai processar os denunciantes, porque sequer conhece o empresário corruptor (!!).

Até essa altura do texto, estou abordando sobre o estágio adulto e já desenvolvido da corrupção, em que os agentes ativos e passivos passaram pela escola da vida e fizeram todas as etapas das especializações exigidas no mundo do crime, como graduação, pós-graduação e doutorado. Com patrimônio devidamente “alaranjado” em nome de terceiros e milhões de dólares em contas no estrangeiro, não se preocupam muito com a prisão porque logo estarão soltos, assim como já ocorrido com todos os “mensaleiros” e os réus das “delações premiadas” da Petrobrás.

O que merece ser lembrado, contudo, é onde tudo começa: a EDUCAÇÃO DOMÉSTICA! Não somente o zelo dos pais na instrução teórica que passam aos filhos, quando em volta da mesa das refeições dizem “meus filhos, não façam isso ou não façam aquilo” como lições básicas para a vida, do que seja correto e honesto. Mas, não mais que de repente, quando surge a oportunidade prática de complementar aquela educação do filho iniciada no lar, eis que um mau exemplo do pai se exterioriza diante de um episódio que acontece com muita frequência. Na venda de ingressos para um determinado evento, as crianças até seis anos não pagam. O pai não compra o ingresso para o filho de oito anos e ante a pergunta do porteiro sobre a idade do garoto, ele afirma que o mesmo tem seis anos. Como foi ensinado em casa que deve ser honesto o garoto logo replica: “Não, eu tenho oito anos!”. Além de levar um tremendo beliscão do pai, o filho protagoniza a sua primeira aula prática de como mentir para levar vantagem, ocasião em que o mundo da corrupção abre as suas portas para saudar a chegada de um membro ativo para o futuro do crime. Tenho certeza que em algum momento da vida os leitores já testemunharam essa falta de escrúpulo passada por alguém às crianças.

Assim, a ética e o caráter são primados básicos e elementares para uma sociedade que se deseja de respeito, trabalho e moralidade. Nada melhor para fechar essa breve análise que reproduzir frases da escritora e filósofa judia-russo-americana AYN RAND, que ilustram muito bem o tema: “[...] quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho; que as leis não nos protegem deles mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto-sacrifício, então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.

Autor:  Adm. Agenor Santos,  Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público –  de Salvador-BA.

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