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ARTIGO – HOTEL SAINT PETER: O COMITÊ POLÍTICO DE LUXO

01 de Dec / 2013 às 23h00 | Espaço do Leitor

Não tenho qualquer pretensão de escrever em série sobre o tema Mensalão, não só porque são fatos ocorridos na política brasileira que enojam o espírito de qualquer cidadão como não desejo ser recalcitrante numa abordagem que pode transmitir a ideia gratuita de aversão político-partidária, o que não é absolutamente o caso. Mas ocorre que o entusiasmo que dominou as pessoas de bem por terem assistido ao pretenso encerramento do processo do Mensalão, com a sentença e prisão dos réus envolvidos, de repente se assiste à montagem de um verdadeiro circo que provoca uma frustração generalizada. Como num legítimo tsunami de imoralidade, os ministros do STF passaram de repente de juízes a algozes, o presidente da corte apelidado de “Homem do Mau”, e ainda aventaram a possibilidade de ser pedido o seu impeachment do cargo e daí por diante. De réus acusados de formação de quadrilha, corrupção ativa ou passiva, lavagem de dinheiro, peculato e evasão de divisas - apenas isso! - transformaram-se em ilustres vítimas ou presos políticos. A organização criminosa foi tão bem concebida que, como as grandes empresas, estava departamentalizada em “Núcleo Político” – tendo como chefe José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula – e o “Núcleo Operacional”, comandado pelo Delúbio Soares.

Naturalmente que toda essa encenação já era esperada porque estamos cansados de ver que nada melhor para abafar um escândalo que gerar outro, imediatamente. Tudo isso seria normal porque estava dentro da expectativa e da tradição. Mas o que impressiona é que mesmo condenado à prisão em regime semiaberto, em que está livre durante o dia e se recolhe à prisão à noite, o José Dirceu continua querendo dar as cartas nesse jogo. Deseja trabalhar durante o dia como Gerente de Hotel de luxo, localizado ao lado do poder da república em Brasília-DF, com o fantasioso e irreal salário de R$20.000,00 – o dobro do mercado para gerentes de carreira – o que é, no mínimo, querer brincar com a inteligência alheia. O importante é que montará o seu Comitê Político, sob as barbas do Supremo Tribunal que o condenou! Tremenda petulância!

O leitor questionará que é um direito inalienável do condenado, nessa circunstância, de trabalhar durante o dia, no que concordo plenamente. Mas a Folha de S. Paulo, jornal da maior credibilidade no país, em reportagem de 28/11, levanta dados estupidamente suspeitos quanto à forma como essa contratação está sendo feita. O futuro patrão do ex-ministro José Dirceu, o empresário Paulo de Abreu, foi favorecido nesta semana com uma medida do governo aprovada mesmo contra relatórios elaborados por técnicos da ANATEL. “Abreu ganhou o direito de transferir antenas da Top TV - uma de suas emissoras - do município de Francisco Morato para a Avenida Paulista, no centro de São Paulo. Conforme análise da Anatel, a mudança da Top TV, canal 35, não poderia ocorrer, pois não seguiu trâmite adequado e porque pode ser inviável tecnicamente”, segundo a Folha. Mas ressalte-se que o empresário é filiado ao nanico PTN e que integra a base política da Presidente Dilma, configurando-se num provável “Mensalinho Tecnológico” ou num verdadeiro “toma lá, dá cá”. Obviamente que competência é o que não falta ao gerente contratado, que acumulará as suas funções administrativas no Hotel (!) em paralelo com o comando do Comitê Político que ali naturalmente se formará, com uma substancial movimentação de novos hóspedes do cenário político nacional e consequente aumento do faturamento da empresa! É tão sagaz e inteligente a manobra que se o Presidente do STF, Ministro Joaquim Barbosa, não autorizar a sua contratação, o José Dirceu novamente será exaltado como vítima e terá direito a reivindicar uma estátua em Brasília, provavelmente com o punho erguido e um sorriso de vencedor!

Enquanto tudo isso acontece, o Deputado José Genuíno, ex-presidente do PT, também do "núcleo político" e que, de acordo com a denúncia “realizava os acertos com os beneficiários sobre os valores que seriam pagos em troca de apoio e teria obtido empréstimos ilícitos em nome do partido”, promove uma comoção nacional pela injusta prisão de um condenado com graves problemas cardiológicos. Paralelamente, antes que perca o seu mandato de Deputado face à condenação, requereu a sua aposentadoria alegando invalidez. Laudo emitido por uma equipe médica especializada informa que não há a gravidade invocada. Significa dizer que os estrategistas estão bastante ativos.

Se não houver uma urgente correção de rumo ou um “freio de arrumação” como se diz popularmente, que reorganize e restabeleça os princípios de seriedade neste país, poderemos estar novamente diante do desencanto e da desesperança.

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – de Salvador-BA                                    agenor_santos@ig.com.br

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