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CRÔNICA - OS BONS TEMPOS DO “FIO DO BIGODE”

27 de Oct / 2013 às 23h00 | Espaço do Leitor

Ainda bem que a memória não permite que histórias tão pitorescas e que realçam as características de firmeza, caráter, dignidade e honradez de um povo, sejam levadas como pó pelos ventos do esquecimento e depositadas sob a penumbra inexorável do passado ou simplesmente deletadas, como se diria na linguagem moderna dos nossos dias. Elas precisam ser contadas para multiplicação do exemplo às novas gerações.

O registro que faço nesta crônica, extraído dos extraordinários relatos orais do meu amigo Francisco Nunes Dourado, o “Senhor Tico” – recentemente falecido - da Fazenda Sabino, município de João Dourado, região de Irecê, traz a lição da grandeza que marcava as atitudes e comportamentos do homem de então. Os tempos do “fio do bigode” ou do acordo feito entre as partes envolvidas dando a entender um compromisso na palavra e na confiança.

Para os mais jovens a expressão não diz muita coisa ou quase nada, mas se impõe uma definição simples, mas contundente:

“Há décadas surgiu a expressão no FIO DO BIGODE, que precedeu o lacre, a rubrica ou assinatura. Consistia em dar em garantia da palavra empenhada um fio da própria barba, retirado em geral do bigode. [...] A palavra valia tanto quanto o fio do bigode. Pois homem que era homem, usava bigode. E para usá-lo tinha que honrar essa condição de homem. [...] Tinha que ter na cara, além da barba, vergonha!” (LINHAÇA, JORGE, site Recanto das Letras).

Voltemos à nossa história. Os “Dourados” que ficaram em Macaúbas tinham o hábito de visitar aqueles que vieram no passado residir nas novas terras da América Dourada (ex-Distrito de Irecê) e esses encontros periódicos geraram uma das histórias mais interessantes de que já tive conhecimento.

Os “Dourados” que lá ficaram, conforme a narrativa, “de vez em quando vinham visitar os daqui; ao retornarem, eram acompanhados até meio dia de viagem pelos que moravam na América Dourada, até uma árvore conhecida como Umburana, na Fazenda Lagoa Nova, do Coronel João Dourado”. O evento se caracterizava como um piquenique ou como se diria hoje uma saideira, visto que “levavam cadeiras, tamboretes e comida; paravam, descansavam, tomavam café e depois chegava a hora da despedida ou bota-fora. Era um momento de alegrias e manifestações de saudades mútuas. Essa umburana adquiriu tal importância que o sogro do Senhor Tico pediu-lhe: “É para ser conservada, pois é uma árvore que faz parte da história da família”.

Certa feita um membro da família, um “Coronel” que nessas viagens era sempre acompanhado de um verdadeiro séquito, partia de volta para Macaúbas concluindo a visita de alguns dias aos parentes. Despediu-se dos familiares e iniciou a caminhada até a Umburana do Bota-Fora acompanhado do seu compadre e outros mais apegados. Depois de algum tempo decorrido no ”bota-fora” e após as solenes despedidas, o visitante gerou esse interessante e exemplar diálogo:

  • Ô compadre, eu vou com um pesar!...
  • De que compadre?
  • Por que não pescamos no xaréu!
  • Compadre foi uma falta mesmo!
  • Vamos combinar: de hoje a um ano, ao meio dia, nos encontraremos aqui para fazermos esta pescaria no xaréu, certo?
  • Certo, compadre. Então até de hoje a um ano.

Na véspera de completar um ano do acordo, o compadre mandou preparar comida e bebida, e no dia seguinte pela manhã caminhou com a sua comitiva de recepção até o local da Umburana do Bota-Fora acompanhado de um escravo. Chegando a hora combinada, disse:

  • Ponha água para ferver prá quando o compadre chegar o café não demorar.

O negro disse baixinho:

-  Ô coisa que eu não tenho fé!

O “Coronel” ouviu o sussurro do escravo e retrucou:

-  O que você falou?  Você acha que o compadre não tem palavra?  Você quer ver?

Caminhou um pouco e gritou:

  • Ôôô... compadre!

Já na curva da estrada, o compadre respondeu:

  • Tô chegando, compadre!

Enfim os compadres puderam realizar o desejo da pescaria do xaréu combinada há um ano e reafirmaram os valores do homem de palavra, hoje uma raridade como componente do caráter e da integridade! Lamentável que nos nossos dias não somente o bigode já desapareceu do perfil do homem, como regra geral, mas até os documentos assinados por ele estão virando folhas mortas, salvo algumas exceções. Como seria tão melhor se as gerações seguintes tivessem assimilado esse valoroso exemplo do “Fio do Bigode”, incorporando-o pelo menos como regra de conduta!

Autor:  Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – de Salvador-BA agenor_santos@ig.com.br

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