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CRÔNICA – DIA DO NORDESTINO: ESSA GENTE SERTANEJA

13 de Oct / 2013 às 23h00 | Espaço do Leitor

Estilingue é Balieira / Uma prostituta é Quenga / Cabra medroso é Molenga / Um baba ovo é Chaleira / Opinar é dar Pitaco / Axilas é Suvaco / E cabra ruim é Mala / Atrás da nuca é Cangote / Adolescente é Frangote / Pra chamar é Dando Siu / Sem falar, Fica de Mal /Separar é Apartá / Desviar é Ataiá / E pra desmentir é Nego / Quem está desnorteado /Aqui se diz Ariado / E complicado é Nó Cego / Coisa fácil é Fichinha /Dose de cana é Lapada / Empurrão é Dá Peitada /E o banheiro é Casinha / Tudo pequeno é Cotoco / Vigi! Quer dizer, por pouco /Desde o tempo da senzala / Verme no bucho é Lombriga /Com raiva Tá Com a Bixiga / Nessa terra nordestina / Seu menino, essa menina! /É assim que a gente fala  (Cordel de autoria de Ismael Gaião da Costa, nascido na capital pernambucana, engenheiro agrônomo).  

A inteligência e a percepção do escritor Euclides da Cunha inspirou-lhe uma frase tão singela quanto verdadeira que ultrapassa o tempo e se eterniza na memória de quantos conhecem as vicissitudes da gente do sertão: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” (Os Sertões, 1ª Edição, 1902). O trovador usa a frase como mote dos seus versos, quando nas feiras livres exalta o inconfundível perfil do nordestino. Os políticos dela se aproveitam quando na empolgação dos seus discursos nem sempre transmitindo o desejado convencimento.

Não basta fazer poesia ou tecer altos elogios em oratórias cheias de empolgação, mas é preciso ter a sensibilidade para sentir e interpretar o verdadeiro significado do adjetivo “forte” de Euclides. Também não tenho a pretensão de fazê-lo. A capacidade de resistência da gente sertaneja vai além dos limites de meras definições literárias ou científicas. O suor com sabor de sangue que lhe corre nas faces parece emergir das suas entranhas como lenitivo e bálsamo para a pele que queima sob a intensidade do sol. Não se quebranta com pouco sofrimento, nem se arrefece ante os grilhões da dor, da sede e da fome, como se lhe fossem alimentos de vida. É um forte que está mais para o verdadeiro sentido de fortaleza, muralha, que resiste bravamente às adversidades.

A enxada do sertanejo parece ser a caneta que escreve no solo do semiárido, ressequido e tórrido, os seus sonhos e esperanças. Imagine, o homem do sertão sonha! Sonha que come e nesse momento se alimenta. Sonha que chove e nesse instante tem a sensação de que gotas de água lhe banham o corpo marcado pelo sol. Planta a semente e sonha que ela vai nascer. Os sonhos e fantasias têm o poder de tornar a sua vida menos sofrida.

No rosto do catingueiro as rugas do sofrimento e do cansaço parecem desenhar pequenos córregos pelos quais rolam gotas de suor que se precipitam ao solo, como se desejassem irrigar a terra de novas esperanças. A lição de resistência, de pertinácia, de fé, de humildade, de esperança, e até de saber sonhar, tem de servir de exemplo aos mortais urbanos. Não é um aprendizado fácil, sobretudo quando as autoridades constituídas ao invés de darem as condições básicas que permitam a convivência do trabalhador com as dificuldades climáticas e naturais destroem a essência principal da sua índole que é a coragem pelo trabalho. Impõem-lhe a cultura da doação e da malemolência. É o estímulo ao nefasto princípio de dar o peixe ao invés de ensinar o homem a pescar.

Será que vamos assistir impassíveis ao desenvolvimento do conceito de que melhor que trabalhar e dar exemplo às novas gerações de filhos e netos é viver sustentado pelas benesses oficiais?  Até quando este povo deixará de usar das suas reservas morais históricas para resistir e enfrentar os apelos a uma vida de inércia e indolência que lhe está sendo oferecida, não se sabe.

Mesmo sabendo que esse sertanejo obstinado “é, antes de tudo, um forte”, incorremos no risco de desconhecer os seus limites e, assim, um futuro incerto pode nos reservar um povo decadente e destruído no cerne da sua estrutura: a luta pela vida através do trabalho.

Nota do autor: Esta crônica foi publicada em maio, 29, 2011, ora reeditada revista e atualizada, para homenagear o “Dia do Nordestino” que ocorreu nesta semana, em 08/10/13, data que passou quase despercebida. Pudera, a eleição será em 2014!                          

Autor:  Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – de Salvador-BA  agenor_santos@ig.com.br

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