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Artigo – REMINISCÊNCIAS – Alguns casos e causos

18 de Aug / 2013 às 23h00 | Espaço do Leitor

Todo cronista do cotidiano tem apego a casos e causos que conhece ao longo da vida, principalmente aqueles originados de algumas figuras tradicionais, folclóricas e inspiradoras de uma variedade de histórias. Como convivi muitos anos em Irecê, tenho alguns registros da época que julgo interessantes:

●Alcir Dourado, grande seresteiro, tinha um barzinho onde vendia churrasquinho e o Sr. Pedrinho Lucena, o primeiro gerente do Banco do Brasil, 1965, era o seu freguês habitual. Certamente que o Alcir se sentia muito honrado em ter o gerente do Banco como seu cliente e usava isso no seu marketing de venda. Certo dia o Alcir, esperando ouvir palavras estimuladoras, pergunta ao seu Pedrinho o que ele achava do churrasco, visto que todo dia levava uns assados para casa. Habituado a algumas tiradas irônicas e debochadas, o seu Pedrinho responde prontamente: “Eu não sei, porque eu levo para o meu cachorro!”.

●Ademar Vilela era Tesoureiro da Prefeitura de Irecê e Aristides Moitinho funcionário do setor de arrecadação. Certo dia o Aristides redige um ofício, certamente para o Sr. Prefeito, e todo garboso e consciente do seu saber de bom redator leva o texto para ouvir a opinião do amigo e colega Ademar. Após a leitura o Ademar diz para o Aristides: “Não é possível, foi você sozinho que escreveu isso aqui?”. Todo feliz pelo suposto e inesperado elogio o Aristides responde já com emoção na voz: “Claro que fiz sozinho!”. E o Ademar arremata com notável deboche: “É que para errar tanto eu pensei que tivesse sido mais de um!”.

● O Prof. Duda Dourado era conhecido não somente pela fama de bom professor de Português, rábula competente e defensor de grande qualidade jurídica, que participou de memoráveis júris na comarca, mas também por algumas frases de efeito que pronunciava. Entre elas conta-se que a sua esposa, profa. Dorinha, insistia em dizer-lhe: “Ô Duda, os meninos vão viajar amanhã cedo e precisam de dinheiro”. Fazia ouvido de mercador e nada respondia. O dia amanheceu e de novo a esposa lembra-lhe do dinheiro para a viagem dos meninos, que iam “para a Bahia”. Aí veio a explosão: “Ô Dorinha, eu lá sou mulher da vida pra dormir sem dinheiro e acordar com dinheiro?”.

Uma figura muito interessante, octogenário, chefe do clã dos “Vasconcelos”, muito respeitado, o Sr. Caetano Moreira Vasconcelos deixou preciosas histórias que são sempre recordadas com carinho nas rodas de piadas, pela sagacidade e humor de algumas de suas frases. Dentre elas recordo algumas:

● Em tempos idos, o Adelmo Moitinho Dourado, saiu candidato a vereador e foi distribuir “chapas” de sua campanha na Gameleira dos Crentes, que pertencia a Irecê. Tinha fama de “rezador” contra mordida de cobra. Entregou as suas “chapas” de vereador para o chefe político Sr. Caetano Moreira, confiante que do seu apoio sairia muitos votos. O velho Caetano, honestamente, não deixou de ajudar o amigo e distribuiu as chapas aos eleitores, mas, ao fazê-lo, tinha o cuidado de dizer: “Guarde a chapa bem guardada que cobra não lhe morderá jamais!”. E o Adelmo perdeu a eleição e na Gameleira não teve nenhum voto!

●Partida de futebol na Gameleira dos Crentes, campo sem alambrado, trave de dois paus e sem rede, cuja única separação entre a torcida e os jogadores era a linha de cal que demarcava o campo. Surge um gol duvidoso, daqueles lances que não se sabe se a bola passou por fora ou entrou mesmo, gerando muita confusão e com invasão de torcedores. O juiz já temendo pela sua integridade física, sugere que se consulte um velhinho que estava em pé ao lado da trave do gol do adversário que, embora torcedor do time da Gameleira era, certamente, uma pessoa íntegra e honesta. E lá vai o Sr. Caetano dá uma de juiz. Perguntado se viu a bola entrar, respondeu com outra pergunta de forma inteligente e inequívoca, usando de malícia e ingenuidade para a facciosa decisão: “Eu não sei se foi gol, mas a bola passou entre esses dois paus, é gol”?

●Conta-se que o velho Caetano estava com um feixe de lenha para conduzir a Irecê e, parado à margem da estrada, dava sinal pedindo carona e ninguém parava o carro. Sabiamente resolveu esconder-se deixando a lenha à vista. Em dado momento, para um carro ao lado do feixe e julgando ter achado um presente dos céus o motorista coloca-o no carro no momento exato em que o velhinho esperto sai do seu esconderijo e pede a carona, que não lhe foi negada. Ao chegar a Irecê pede ao caroneiro que o deixe na casa do seu genro Tenente Wilson e pergunta se quer descarregar o feixe de lenha na frente ou no fundo da casa, visto que o tal lhe pertencia. Desnecessário dizer a cara de enganado da vítima que deu a carona!

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público - Salvador-BA                                                                     agenor_santos@ig.com.br

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