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ARTIGO: A TORRE DE BABEL E OS NOVOS TEMPOS

13 de Jan / 2013 às 23h00 | Espaço do Leitor

A todo aquele que escreve é dado o direito de hibernar voluntariamente por algum tempo, não abandonando a caneta como se dizia no passado, mas nos dias de hoje seria como dando um descanso ao PC. Contudo existem outras razões e formas de hibernação temporária, entre as quais pode ser permitido ao pensamento o direito a reflexões sobre variados temas, o que não significa a quebra de compromissos ideológicos, mas o ajustamento das ideias dentro do turbilhão de acontecimentos do dia a dia.

O quadro político nacional na recente eleição municipal consolidou a convicção de que tudo vale para se manter ou atingir o poder, quando os princípios ideológicos são esquecidos ou colocados em segundo plano. Não há necessidade de identificar ou localizar cada caso porque as coligações esdrúxulas foram generalizadas no plano nacional, com sucessos e derrotas frustrantes, mesmo porque não é fácil falar a mesma língua, nestas circunstâncias. Essa convivência política conflitante, caracterizada pela dificuldade de comunicação entre as partes coligadas, faz-me lembrar de um episódio bíblico em que Deus interrompeu a edificação pelo homem da Torre de Babel, que configurava a ânsia de demonstrar poder e um momentâneo desvio aos princípios divinos. Por isso no Livro do Gênesis, há o registro de que Deus implantou a “confusão de línguas”, oque gerou a dificuldade de intercomunicação e inviabilizou a continuidade do projeto, surgindo daí a diversidade de línguas ainda hoje existente no mundo. O que se viu em muitos quadrantes do Brasil de hoje foi uma confusão semelhante, sem um ordenamento do pensamento e da linguagem, ou fidelidade a princípios, face à ascendência predominante das conveniências pessoais e políticas.

Além das reflexões inspiradas nessa dicotomia política, a nação assistiu com profunda ansiedade a evolução de um processo de reformulação conceitual da abalada credibilidade no Poder Judiciário nacional, visto que já imperava a convicção no cidadão de que os ricos e poderosos não mais eram punidos pela Justiça. Apesar de que tudo teve inspiração na grandeza de atitudes do Ministro Joaquim Barbosa, o seu caráter, dignidade, integridade, honestidade e competência jurídica, contagiaram de tal forma os demais pares, que a decisão final no julgamento dos envolvidos no processo do Mensalão teve o poder de recuperar e fortalecer as estruturas de todo o Supremo Tribunal Federal. Esse foi um fato histórico de tal magnitude que provocou um profundo impacto no arcabouço de fé e esperança do cidadão brasileiro, restabelecendo convicções já adormecidas. É de se concluir que nem tudo está perdido e que um novo cenário se desenha no horizonte deste nosso país, mesmo porque as atitudes assumidas pelo Ministro Joaquim Barbosa devem produzir, no mínimo, os frutos do bom exemplo, influindo positivamente na formação dos nossos jovens e futuros profissionais. Mesmo quando contrariou as expectativas da população e da imprensa, não impedindo a posse dos suplentes já condenados, como era esperado, o Ministro Barbosa o fez com altivez baseado na opção de não decidir sozinho, mas reservando a decisão ao Tribunal que os condenou. Oxalá, também os nossos políticos em geral possam buscar inspiração no perfil de dignidade desse nosso modelar ministro.

Diante desse contexto, impõe-se efetivamente o recarregamento das baterias do pensamento, de modo a não permitir que os fatos possam exercer influência malévola ao exercício da coerência e da fidelidade ideológica, principalmente quando as pressões externas são muito comuns e frequentes nesses casos.

Autor:   Adm. Agenor Santos    agenor_santos@ig.com.br

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