RedeGN - Imprimir Matéria

“Crônica de uma tragédia anunciada”

04 de Nov / 2012 às 15h00 | Espaço do Leitor

Foto: Lizandra Martins

A ocupação da ilha do fogo, ou melhor, a invasão - já que a mesma nunca esteve desocupada - pelo Exercito Brasileiro vem mostrando seus saldos negativos a cada dia que passa. A tomada do espaço público daqueles que são seus possuidores de direito, o povo, vem provocando a migração dos banhistas da Ilha do fogo para a praia da marinha. Esta possui características peculiares de uma zona de atracação de balsas, ou seja, possui terrenos acidentados submersos, os quais facilitam os afogamentos. Não bastasse a condição geológica, ainda há a questão demográfica. Com as fortes ondas de calor deste período do ano,  sem se ter mais à disposição o equipamento público em questão, a ilha do fogo, ocorre uma maior aglomeração de pessoas na praia da marinha,  aumentando o número de indivíduos que se expõe ao risco de afogamento. 

Nasemana quese passou alguns sinistros aconteceram. Continuaram a acontecer. O caso mais emblemático foi o lamentável afogamento de um jovem de apenas 12 anos. Quantos jovens precisarão morrer até termos nossa Ilha do fogo de volta? É válido ressaltar que nos últimos anos não ocorreu ao menos um afogamento na ilha, mesmo não havendo Bombeiros (valorosos protetores de vidas) de prontidão. Isso acontece em decorrência da geografia da ilha com bancos de areia e margens com pouca profundidade tratando-se, portanto, de um local propício para práticas esportivas e de lazer. 

Não é preciso ser vidente para saber que novos afogamentos acontecerão. E que nosso povo continuará morrendo pelos atos inconsequentes do nosso amado Exército,  o qual,  ao invés de estar defendo as fronteiras da entrada de armas e drogas, toma de assalto, com uso desnecessário de armamento pesado e visão noturna, algo que pertence e é de extremo valor para seu povo. 

O Exército brasileiro está criando outros problemas. O mais perceptível são as mortes por afogamento, mas existem outros problemas, que entraram nas estatísticas de saúde pública, como por exemplo: o aumento no número de pessoas contaminados por doenças contraídas em águas poluídas.  É do conhecimento de todos que as margens dos nosso municípios não estão livre da poluição e do esgoto in-natura(sem tratamento), muito desses dejetos são lançados no nosso Rio. A única praia urbana, que tem os efeitos da poluição minorado por causa da localização geográfica, é a Ilha do Fogo. Quantos recursos não serão utilizados para o tratamento dessas pessoas, pelo simples capricho do exercito possuir uma praia para seus oficiais? Será que o exercito está a serviço do povo brasileiro mesmo? 

Tem-se utilizado argumentos descabidos para justificar o fechamento da "ilha do povo". Um deles seria oproblema do consumo de substâncias psicoativas no local que dizem ter solucionado.Se torna evidente que, ao afirmar isso, ou estão utilizando um argumento esdrúxulo para receber apoio da população ou desconhecem o constante na Politica Nacional de Drogas (RESOLUÇÃO Nº3/GSIPR/CH/CONAD, DE 27 DE OUTUBRO DE 2005), que norteia as ações do governo federalsobre tal questão. Segundo o plano nacional, a solução do problema de abuso de substâncias psicoativas passa pela estruturação de uma rede de atenção aos usuáriose pelo acompanhamento destes, pois o abuso dessas substâncias é um problema de saúde pública. Portanto, não compete ao exercito, comoprevisto na constituição federal, cercear o ir e vir da população por supor que este ou aquele lugar é utilizado para consumo de drogas.Se fosse essa a solução para a questão, muitos locais da cidade deveriam ser tomados pelo exército, não só a ilha. 

Gostariamos de estar enganados ao supor que mais sinistros acontecerão, que mais doenças pressionarão o nosso, já combalido, Sistema Único de Saúde (SUS) e que aquela porção de terra chamada ilha do fogo virará um hotel de trânsito dos oficiais. Da mesma forma, preferiríamos estar equivocados ao acreditar nas palavras da Comissão de Defesa do Congresso Nacional, que critica a vinda de Engenheiros Militares Norte Americanos (USACE) para estudar as riquezas do nosso Velho Chico, com a subserviência do Exército Brasileiro. 

Os fatos são evidentes e é impossível que qualquer pessoa a par dos mesmos se engane. Até quando ficaremos assistindo tomarem tudo que é nosso sem reagir? É preciso lutar contra as arbitrariedades que o povo sofre.

O Coletivo Amigos da Ilha defende o livre acesso à Ilha do Fogo.  

A Ilha do Fogo é do povo brasileiro. E sempre será!!! 

É preciso ultrapassar. 

Rodrigo Wanderley e Cynthia Anália Garcia 

© Copyright RedeGN. 2009 - 2022. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do autor.