(1)(1)(1)(1)(1)(1)(1)(2)(1)(1)(1)(1)(2)(1)(1)(1)(1)(1)(1)(1)(1)(1)(1).jpeg)
Poucas vezes uma propaganda de geladeiras me obrigou a pensar sobre o destino dos afetos humanos. Aquela, porém, conseguiu. Não por causa da tecnologia que anunciava, nem pela elegância do design ou pela economia de energia que prometia, mas porque, sem o perceber, vendia muito mais do que um eletrodoméstico: vendia uma filosofia de vida.
A mensagem era simples e sedutora: quando o antigo deixa de satisfazer plenamente, substitui-se pelo novo. Nada mais razoável. Afinal, os objetos existem para servir e, quando deixam de cumprir sua função, cedem lugar aos que a desempenham melhor. O desconforto surgiu apenas horas depois, quando compreendi que essa lógica, concebida para as coisas, havia silenciosamente invadido o território das relações humanas.
Talvez esse seja um dos traços mais inquietantes da contemporaneidade. Aprendemos a substituir quase tudo. Trocamos aparelhos, automóveis, telefones, empregos, ideias e convicções com uma rapidez que teria espantado nossos pais. A novidade converteu-se em virtude, enquanto a permanência passou a ser confundida com atraso. Aos poucos, essa cultura do descarte atravessou a soleira de nossas casas e alcançou o coração humano. Não raramente, amizades são interrompidas porque deixaram de ser convenientes; amores são abandonados porque já não produzem o encantamento dos primeiros dias; pessoas passam a ser avaliadas segundo critérios de utilidade, como se também elas possuíssem prazo de validade.
Entretanto, a vida - essa paciente professora que jamais distribui diplomas - ensina outra lição. Aos setenta e seis anos, aprendi que os seres humanos não ocupam apenas espaço em nossa existência; ocupam espaço em nossa consciência. Os objetos exercem funções; as pessoas escrevem capítulos da nossa história. Uma geladeira conserva alimentos. Um amigo conserva pedaços da nossa memória. Um eletrodoméstico pode ser retirado da casa sem deixar vestígios na alma. Já aqueles que verdadeiramente caminharam ao nosso lado continuam habitando corredores invisíveis da lembrança, muito depois de sua voz ter silenciado.
Foi então que me lembrei de Antoine de Saint-Exupéry, aquele extraordinário aviador que escrevia como quem sobrevoava a alma humana. Entre nuvens, desertos e longas travessias, compreendeu uma verdade que talvez a civilização tecnológica ainda não tenha assimilado: o tempo é o único bem capaz de transformar uma rosa comum em algo absolutamente insubstituível. Costumamos repetir que nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos, mas raramente exploramos toda a profundidade dessa afirmação. Cativar não significa aprisionar alguém; significa permitir que duas existências se modifiquem mutuamente. O Pequeno Príncipe não amava sua rosa porque fosse a mais bela dentre todas. Amava-a porque havia depositado nela uma parte irreversível da própria vida. O tempo - e não a perfeição - foi o escultor daquele amor. Talvez todo grande amor seja exatamente isso: uma escultura feita pelo tempo, jamais pela pressa.
Shakespeare fez Julieta perguntar: “Que há num nome?” Saint-Exupéry talvez respondesse que o nome importa menos do que o tempo. Não é o nome da rosa que a torna única; é o amor que nela foi semeado. As coisas recebem um nome. As pessoas recebem uma história. E é a história compartilhada que lhes confere um valor que nenhuma lógica de mercado consegue medir.
Quanto mais envelheço, mais desconfio de que o tempo seja a verdadeira matéria-prima dos afetos. O dinheiro perdido pode ser recuperado. A saúde, às vezes, também. O tempo, jamais. Cada minuto que oferecemos a alguém deixa de nos pertencer para transformar-se em memória compartilhada. É por isso que certas pessoas continuam vivas dentro de nós, mesmo quando a distância ou a morte lhes fecharam os olhos. Elas já não pertencem apenas ao mundo; pertencem àquilo em que nós nos transformamos por sua causa.
Talvez tenha sido essa percepção que aproximou meu pensamento de Albert Camus. O absurdo de que falava o filósofo não reside propriamente no mundo, mas no desencontro entre o nosso desejo de permanência e a indiferença do universo. Queremos que tudo dure; a existência responde com a transitoriedade. Buscamos explicações; o silêncio frequentemente nos devolve apenas perguntas. Talvez por isso o rio nunca responda às inquietações que lhe fazemos. Os rios não discutem com os homens. Apenas seguem seu destino. E talvez seja justamente por isso que tenham tanto a nos ensinar.
As águas do São Francisco sabem disso melhor do que ninguém. Desde que cheguei a Juazeiro, observo o rio seguir seu curso sem jamais pedir licença às margens. A água que hoje acaricia o velho juazeiro não é a mesma de ontem, nem será a de amanhã. No entanto, o juazeiro permanece. Não porque detenha a correnteza, mas porque aprendeu a lançar raízes mais profundas do que a força da água consegue alcançar. Talvez essa seja a mais bela metáfora do amor e da amizade. Os acontecimentos escorrem como o rio; os afetos verdadeiros criam raízes. O tempo leva os dias, mas não consegue levar tudo consigo.
Há presenças que deixam de caminhar ao nosso lado para caminhar dentro de nós. Continuamos a consultá-las em silêncio, como quem ainda pede conselho a um pai ausente, sorri ao recordar um velho amigo ou conversa intimamente com alguém cuja cadeira permanece vazia, mas cujo lugar jamais deixou de existir no coração. Nenhuma dessas pessoas pode ser substituída, porque ninguém substitui aquilo que ajudou a construir quem somos.
No fim das contas, percebo que a propaganda estava absolutamente certa. Geladeiras existem para serem substituídas. Pessoas, não. Um novo amor pode iluminar a vida sem apagar o anterior. Novos amigos podem chegar sem expulsar da memória aqueles que nos ensinaram a caminhar. O coração humano não funciona por reposição de peças; funciona por acumulação de significados.
Quando o entardecer desce sobre Juazeiro e o velho juazeiro projeta sua sombra sobre as águas do São Francisco, compreendo que Saint-Exupéry jamais estava falando apenas de uma rosa. Falava da condição humana. Somos feitos do tempo que entregamos aos outros e das marcas que eles deixaram em nós. As geladeiras envelhecem, enferrujam e acabam esquecidas em algum depósito. Os afetos autênticos seguem o caminho inverso: quanto mais o tempo passa, menos pertencem ao calendário e mais pertencem à eternidade da memória.
Talvez seja por isso que gosto de contemplar o rio ao cair da tarde. O São Francisco leva embora as águas do dia, mas não consegue levar a sombra do velho juazeiro. Com os afetos acontece o mesmo. O tempo passa. A vida passa. Nós também passaremos. Mas, enquanto houver alguém capaz de pronunciar o nosso nome com afeto, recordar um gesto nosso ou sorrir diante da memória daquilo que vivemos juntos, talvez ainda não tenhamos partido por inteiro.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
© Copyright RedeGN. 2009 - 2026. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do autor.