
Penso em três movimentos necessários para uma leitura de Pedro Américo e a Monalisa, bem como para a biografia Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas (2022), do advogado e escritor campinense Thélio Queiroz Farias. O primeiro movimento passa, necessariamente pelo biografado. Aqui, o areiense Pedro Américo, o maior pintor brasileiro do império, político, romancista, cientista, ensaísta, professor. Pedro Américo enquanto personagem histórico foi biografado em dezenas de obras desde o século XIX. Thélio Farias enumera por ordem de edição todas as biografias e livros inspirados em Pedro Américo, em sua recente obra Pedro Américo e a Monalisa (2025).
O segundo movimento abraça a cidade como organismo vivo, “lugar de exprimir a tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das existências humanas.”, como bem disse Ítalo Calvino. Penso que para se conhecer um personagem histórico faz-se necessário conhecer bem o lugar e a época em que ele viveu e atuou. Pedro Américo, em seu romance “O Holocausto” (1882) acusa a localização geográfica da cidade, o clima, os abismos como responsáveis pela inclinação às artes e à melancolia, inclusive. O terceiro movimento é o do biógrafo, o escritor de vidas.
Para o pesquisador, Sérgio Vilas Boas, uma das instâncias que pode interferir no resultado da biografia é o próprio biógrafo (autor e interpretante). Pierre Bourdier chama de ilusão biográfica, a tentativa de o biógrafo ordenar os acontecimentos de uma vida de forma linear, na ilusão de que se obtenha dessa organização uma narrativa coerente, autônoma e estável.
Segundo o sociólogo francês, o máximo que a biografia pode oferecer seria uma reconstrução, um efeito de real. Nesse caminho, o biógrafo contará com a sua própria capacidade de reconstrução, de sua “vigilância sobre valores e juízos”. A responsabilidade do biógrafo, pois, é grande, ele não pode correr o risco de construir simplesmente um mito. Mito não é história e nem se confunde com esta, embora a construção mítica possa falar sobre ela, mesmo que de maneira enviesada, reorganizando significados e concepções criados ao longo do processo de elaboração.
O biógrafo Thélio Farias, a despeito de seu rigor de pesquisador, se não constrói um mito, cuidadoso que é, ouso dizer que sofre de uma obsessão, no sentido de obstinação e fixação, pela figura de Pedro Américo. O advogado ilustrado tem se dedicado, compulsivamente, à vida e à obra do pintor paraibano: refez todos os lugares por onde este passou, leu e releu todos os documentos e demais impressos de e sobre o multifacetado personagem. Tem dedicado grandes pedaços da vida a refazer os caminhos, interpretar obras, refazer genealogias, buscar detalhes que sirvam à sua fome de biógrafo. Mas se detém pouco a uma crítica da obra propriamente dita, do pintor e escritor, até porque seu foco são as multifacetas do personagem inspirador, o renomado pintor e os fatos em torno de sua vida. Prova é sua mais recente produção, lançada em Areia, Paraíba, no Teatro Minerva, no último dia 02 de Julho. Thélio, se foge de uma narração mítica, não exclui, portanto, a paixão ao falar do ilustre areiense (e por que deveria?).
Nesta obra em particular, o biógrafo encontra a ligação de Pedro Américo com o pintor Leonardo da Vinci, ao descobrir que o palácio onde Pedro Américo se instalara para residir e trabalhar, fora erigido onde antes era a casa em que Mona Lisa nascera e crescera. Fato pitoresco, com notas de uma feliz coincidência. Ou sincronicidade, diriam os mais espiritualistas, que acreditam não haver coincidência no universo. Ou mais profundamente, podemos citar o paradoxo do tempo bergsoniano, para quem o passado puro é o lugar onde todas as experiências podem se realizar, uma linha horizontal, estado permanente de coexistência, invisível e real, tempo que, a meu ver, serve bem à proposta de Thélio Queiroz, biógrafo de Pedro Américo.
Por último, o biógrafo, para além de um rigor e de uma rigidez histórica e científica, também é factível a paixões, o maior perigo humano real. Na fala do advogado da antiga Vila Nova da Rainha, a paixão aparece na entonação, na postura, nos gestos. No texto, ela se insinua na adjetivação, nas construções entusiásticas, na criação do perfil temático nas redes sociais, como o perfil no Instagram, @pedroaméricovive, assinado por Thélio, em que este assume a persona do pintor.
Thélio Farias, enquanto biógrafo de Pedro Américo, segue nos apresentando, não um Pedro Américo absoluto, mas um Pedro Américo cuja imagem ainda nos apresenta sujeitos possíveis dentro da construção histórica e humana. Prova é que a obra Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas teve uma nova edição, revista, ampliada, aumentada e comentada. A fonte inesgotável.
JANAINA DE CASTRO AZEVEDO SILVA, professora mestre em letras, Autora de três livros: Marias (1999 - Prêmio Novos Autores Paraibanos, livro indicado para o Vestibular 2012 da Universidade Estadual da Páraíba); Orquídea de Cicuta (Contos, 2002) e Canção para dois amores (Poemas, 2005). Professora, produtora e ativista cultural na cidade de Areia, PB.
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