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Foi o futebol quem fez a pergunta. Não um historiador, nem um sociólogo, tampouco um pesquisador de arquivos empoeirados.
Durante a Copa do Mundo da FIFA de 2026, enquanto brasileiros e argentinos renovavam a velha rivalidade que atravessa gerações, as redes sociais foram tomadas por uma indagação aparentemente simples: por que a seleção argentina não apresentava jogadores negros? Como acontece frequentemente, o esporte apenas acendeu o pavio de uma discussão muito mais antiga. Bastou a bola parar de rolar para que a História entrasse em campo.
À primeira vista, a resposta parecia fácil. Muitos repetiram que os negros haviam desaparecido da Argentina em consequência das guerras de independência, das guerras civis e da epidemia de febre amarela de 1871. Essa explicação, repetida durante décadas, possui um fundo de verdade, mas está longe de contar toda a história.
O primeiro aspecto que merece ser lembrado é demográfico. A região do Rio da Prata recebeu africanos escravizados durante todo o período colonial, sobretudo por intermédio do porto de Buenos Aires. Contudo, quando comparada ao Brasil — destino da maior parte do tráfico atlântico para as Américas —, a quantidade de escravizados introduzidos foi significativamente menor. Isso não significa que sua presença fosse irrelevante. Muito pelo contrário. Em determinados momentos, os afrodescendentes constituíam uma parcela importante da população de Buenos Aires, participando da vida econômica, militar, religiosa e cultural da cidade.
A Independência encontrou esses homens e mulheres em plena construção da nova nação. Muitos combateram nos exércitos patriotas, e poucos personagens simbolizam melhor essa participação do que MaríaRemedios del Valle. Mulher negra, perdeu o marido e os filhos durante a guerra, foi ferida em combate, presa, açoitada pelos realistas, conseguiu escapar e retornou ao campo de batalha. Sua bravura levou o general Manuel Belgrano a tratá-la como "Capitana". Décadas depois, entretanto, a heroína da Independência sobrevivia na pobreza, praticamente esquecida pelo país que ajudara a libertar. Sua biografia parece resumir o destino de tantos afro-argentinos: protagonistas da história, mas ausentes da memória oficial.
As guerras, evidentemente, provocaram elevadas perdas humanas. As epidemias agravaram esse quadro. Mas a Argentina do final do século XIX experimentaria uma transformação ainda mais profunda. Milhões de imigrantes europeus — sobretudo italianos, mas também espanhóis e outros povos do continente — desembarcaram no país, alterando radicalmente sua composição demográfica. Buenos Aires transformou-se numa das cidades mais italianas do mundo fora da Itália. Não por acaso, a cultura portenha passou a incorporar hábitos, sotaques e costumes profundamente marcados pela imigração.
Essa extraordinária transformação populacional coincidiu com um projeto político que procurava apresentar a Argentina como uma nação moderna e essencialmente europeia. A miscigenação tornou menos visíveis muitos descendentes de africanos, enquanto os censos e a própria narrativa oficial deixaram, por longo período, de destacar a presença afrodescendente. O historiador George Reid Andrews demonstrou, em seu estudo clássico “The Afro-Argentines of Buenos Aires (1800–1900)”, que o fenômeno não foi o desaparecimento de um povo, mas sua crescente invisibilização. Os afro-argentinos continuaram existindo; o que mudou foi a forma como passaram a ser vistos — ou, mais precisamente, deixaram de ser vistos.
Talvez aí resida uma das maiores ironias da História. Os povos raramente desaparecem de um dia para o outro. O que desaparece, com muito mais frequência, é a memória que a sociedade conserva sobre eles. Uma fotografia esquecida numa gaveta não deixa de retratar uma família apenas porque deixou de ocupar a parede da sala.
Curiosamente, foi uma discussão futebolística que nos levou de volta a essa fotografia esquecida. A rivalidade entre Brasil e Argentina, quase sempre tratada com bom humor, acabou despertando milhares de pessoas para um capítulo pouco conhecido da história sul-americana. A pergunta que parecia tratar apenas da escalação de uma seleção revelou-se, na verdade, uma investigação sobre identidade, memória e construção nacional.
No fundo, nunca se tratou de saber onde estavam os negros da Argentina. Eles estavam nas ruas de Buenos Aires, nos batalhões da Independência, nas irmandades religiosas, na música, na formação da cultura portenha e na própria construção da República. A pergunta correta talvez seja outra: por que demoramos tanto para voltar a enxergá-los?
Essa talvez seja uma boa lição também para nós, brasileiros. Todo país escolhe as fotografias que deseja pendurar na parede de sua história. O verdadeiro teste de maturidade, porém, não consiste em admirar apenas os retratos mais vistosos, mas em abrir, de tempos em tempos, a velha gaveta da memória para reconhecer aqueles que, embora esquecidos por gerações, jamais deixaram de fazer parte da família.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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