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Nasci aqui.
Nasci quando Juazeiro ainda dava seus primeiros passos rumo ao crescimento. Caminhei por suas ruas de barro, testemunhei o surgimento de seus sonhos e acompanhei cada etapa de sua transformação.
Ao longo dos meus 72 anos de vida, vi Juazeiro completar 80, 100, 120 e, agora, 148 anos de emancipação política.
E, se o tempo me ensinou algo, foi que uma cidade se assemelha às pessoas: cresce, enfrenta desafios, aprende com os próprios erros e sempre encontra forças para recomeçar.
Foi aqui que recebi as primeiras lições da vida.
Foi aqui que estudei, constituí minha família, fiz amigos e compreendi que o conhecimento pode levar um homem aos lugares mais distantes sem jamais permitir que ele esqueça suas origens.
Graças ao que aprendi em Juazeiro, pude conhecer o mundo. Trabalhei em outros estados brasileiros e em países como Inglaterra, Israel, Peru e diversas nações africanas. Em cada lugar, deixei um pouco do que aprendi nesta terra, mas também trouxe novas experiências que enriqueceram minha trajetória.
Por isso, quando afirmo que Juazeiro me ensinou a caminhar pelo mundo, afirmo também que sempre procurei honrar o nome da minha cidade onde quer que estivesse.
Eu vi a política mudar.
No tempo de Joca de Souza, o prefeito sentava-se na calçada com os assentadores de paralelepípedos. Tomava o café oferecido pelo povo, em copo esmaltado, e ouvia atentamente as pessoas.
Os vereadores, visitava os bairros, conhecíamos, pelo nome e apelidado e eles faziam da rua o seu gabinete.
Hoje, o mundo se tornou maior, mas a política parece ter se distanciado das pessoas. Precisamos resgatar a simplicidade da boa conversa, da porta aberta, do café compartilhado e do respeito ao cidadão.
Eu vi a cultura resistir.
Vi os carnavais das caretas, de Maninho Budoque e sua trupe, levando alegria, irreverência e tradição às ruas de Juazeiro. Vi também o carnaval de Juazeiro, com seus blocos, troças e foliões, enchendo a cidade de cor, música e animação. Vi a Cacumbu, A Voz do São Francisco e Fala Quem Pode, e tantas outras batucadas, manifestações que ajudaram a manter viva a alma cultural da cidade.
Vi os festejos de São João sem grandes palcos, apenas com sanfona, fogueira e alegria.
Vi também a passagem do bumba meu boi de Bebela, que ganhou várias vezes prêmios em nível nacional, disputados em São Paulo, conduzido por Chicão, um preto de quase 2 metros de altura, que também conduzia os penitentes e era famoso nas serestas com sua voz de tenor.
Vi nossos artistas levarem o nome de Juazeiro para o Brasil e para o mundo sem jamais esquecerem suas raízes.
A cultura de Juazeiro é como o próprio juazeiro do sertão: resiste, floresce e permanece viva, mesmo quando lhe faltam apoio e incentivo.
Eu vi o esporte unir gerações.
Vi o futebol de salão da quadra da Rua Quinze, com Spartaco e Franvale, reunir jovens, famílias e apaixonados pelo esporte em noites de disputa e amizade.
Vi também o futebol com Veneza e Olaria, que fazia a cidade vibrar, despertando rivalidades saudáveis e fortalecendo laços entre bairros, amigos e torcedores.
O esporte sempre foi mais do que competição.
Foi encontro, disciplina, alegria e esperança para muitos jovens que encontraram no campo e na quadra um caminho de convivência e aprendizado.
Eu vi a terra se transformar em riqueza.
No início, a economia era praticamente baseada no transporte de mercadorias pelo rio, em vapores que seguiam daqui para Minas, com grande fluxo de passageiros e embarcações que iam até Pirapora, de onde os viajantes seguiam em outro transporte para São Paulo.
Vi o tempo em que plantar era confiar apenas na chuva. Depois veio a irrigação.
O rio São Francisco passou a gerar não apenas peixe, mas também emprego, renda e desenvolvimento, ampliando as possibilidades de uma melhor distribuição de renda entre as famílias que vivem da agricultura.
A manga e a uva fizeram Juazeiro ultrapassar fronteiras. Passamos a ser reconhecidos pela força do trabalho. Agora, precisamos cuidar ainda mais do pequeno produtor, preservar o rio e proteger a terra que sustenta tantas famílias.
Eu vi a educação transformar vidas.
Na minha infância, estudar era privilégio de poucos. Muitos precisavam abandonar os livros para trabalhar cedo.
Hoje, vejo filhos e netos na universidade. Vejo jovens da zona rural tornando-se professores, médicos, engenheiros e profissionais das mais diversas áreas.
A educação demora a produzir seus frutos, mas, quando floresce, transforma famílias, bairros e toda uma cidade.
Juazeiro...
Você tem 148 anos, mas continua com alma jovem, cheia de esperança e capacidade de sonhar.
Já foi pequena vila, tornou-se polo regional, enfrentou dificuldades, conquistou respeito e segue escrevendo sua história.
Se me perguntarem o que desejo para os próximos anos, minha resposta continuará a mesma:
Quero uma política mais próxima das pessoas.
Quero uma cultura valorizada.
Quero uma agricultura que produza riqueza sem deixar de preservar o nosso rio.
Quero educação de qualidade para todas as crianças e jovens.
Quero uma cidade cada vez mais humana, limpa, organizada e acolhedora.
Hoje, ao olhar para trás, percebo que recebi muito desta terra.
Foi ela que me deu oportunidades para aprender, crescer e conhecer o mundo.
Mas também me deu a responsabilidade de retribuir um pouco do que recebi, compartilhando conhecimento, experiência e, acima de tudo, amor por Juazeiro.
Tenho orgulho de dizer que ajudei a construir esta cidade com meu trabalho, meu suor e minha dedicação.
E, enquanto Deus me conceder forças, continuarei de pé, sempre disposto a servi-la.
Parabéns, Juazeiro, pelos seus 148 anos.
Que Deus continue abençoando esta terra e todos aqueles que fazem dela um lugar cada vez melhor para viver.
Meus agradecimentos
Luiz Alves - Engenheiro Agrônomo, Apaixonado por Juazeiro.
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