A defesa do meio ambiente não pode ser um adereço de campanha eleitoral, diz jornalista

28 de Jun / 2026 às 11h30 | Variadas

A cada eleição, milhares de brasileiros que se preocupam com a proteção da natureza se veem diante do mesmo dilema.

De um lado, candidatos que defendem abertamente a flexibilização das leis ambientais, a redução de áreas protegidas e a subordinação dos interesses ecológicos aos interesses econômicos imediatos.

Do outro, grupos políticos que historicamente incorporaram em seus discursos a defesa da ciência, da sustentabilidade e da justiça socioambiental.

Diante desse cenário, muitos eleitores ambientalistas acabam votando não por convicção plena, mas por contenção de danos. O objetivo deixa de ser apoiar um projeto ambiental consistente e passa a ser impedir a vitória de outro considerado mais nocivo.

Essa escolha é compreensível. O problema surge quando ela se transforma em automatismo.

Quando um grupo político tem a certeza de que continuará recebendo determinados votos independentemente de suas ações concretas, diminui o incentivo para que trate aquelas pautas como prioridades reais de governo. A crítica continua existindo, mas perde capacidade de produzir consequências políticas.

Talvez por isso estejamos assistindo a uma situação curiosa e preocupante. Em diversos lugares do país, inclusive no Ceará, governos eleitos com apoio significativo de ambientalistas vêm promovendo ou tolerando medidas que enfrentariam forte resistência se fossem apresentadas por setores tradicionalmente associados à direita.

Em Fortaleza, a revisão de alguns retrocessos herdados da gestão anterior gerou expectativas positivas no início do atual mandato. No entanto, decisões posteriores passaram a indicar um caminho diferente. Confira na integra Opinião/Thieres Pinto é biólogo, consultor ambiental e fotógrafo de natureza O voto ambientalista não pode ser um cheque em branco

Áreas ambientalmente relevantes seguem ameaçadas por mudanças nas regras de ocupação do território, unidades de conservação municipais continuam sem instrumentos fundamentais de gestão, grandes intervenções urbanas avançam sem o debate público necessário e iniciativas de valorização da biodiversidade local encontram obstáculos difíceis de compreender.

No âmbito estadual, as preocupações também se acumulam. A autorização da pulverização aérea com drones, a insistência em empreendimentos cercados por graves questionamentos ambientais e técnicos, a demora na consolidação de áreas protegidas estratégicas e a fragilidade da resposta a pressões sobre patrimônios naturais relevantes revelam uma distância crescente entre discurso e prática.

Mas existe uma questão ainda mais delicada.

Quando governos assumidamente conservadores propõem reduzir proteções ambientais, flexibilizar regras ou favorecer empreendimentos de alto impacto, costumam enfrentar resistência imediata. Movimentos sociais, organizações ambientalistas, pesquisadores, partidos de oposição, Ministério Público e parte das instituições públicas se mobilizam para denunciar, fiscalizar, judicializar e impor custos políticos a essas iniciativas.

O mesmo nem sempre acontece quando medidas semelhantes são conduzidas por governos identificados com o campo progressista.

Nesses casos, a crítica frequentemente se torna mais tímida. Alguns setores evitam confrontos para não fragilizar aliados políticos. Outros relativizam retrocessos em nome de disputas consideradas maiores ou mais urgentes. Ao mesmo tempo, a oposição conservadora raramente se mobiliza em defesa de unidades de conservação, biodiversidade, direitos territoriais ou proteção climática.

Cria-se, assim, uma situação paradoxal. Determinadas políticas que encontrariam enorme resistência caso fossem apresentadas por governos conservadores acabam avançando com menos obstáculos justamente porque são conduzidas por governos que contam com a confiança histórica de parte dos movimentos socioambientais.

Talvez seja hora de o movimento ambiental recuperar parte de sua autonomia política

Não se trata de afirmar que direita e esquerda são equivalentes na questão ambiental. Existem diferenças importantes entre projetos políticos e seria um erro ignorá-las.

Mas também é um erro acreditar que a simples identificação ideológica substitui a avaliação concreta das ações de governo.

A destruição de ecossistemas, a perda de biodiversidade, a contaminação da água, a ocupação de áreas frágeis e o agravamento da crise climática produzem consequências que ultrapassam mandatos, partidos e ciclos eleitorais. A natureza não distingue governos progressistas de governos conservadores. Os impactos ambientais também não.

Por isso, talvez seja hora de o movimento ambiental recuperar parte de sua autonomia política.

Isso não significa aderir a projetos conservadores nem abandonar compromissos democráticos. Significa apenas reconhecer que nenhum governante deveria considerar o voto ambientalista como patrimônio garantido.

A mudança começa por algo simples: exigir programas de governo que apresentem compromissos claros, metas verificáveis e mecanismos de acompanhamento público. Não basta defender genericamente o desenvolvimento sustentável. É preciso dizer como serão protegidas as áreas naturais, quais unidades de conservação serão efetivamente implementadas, como serão enfrentados os conflitos socioambientais e quais critérios orientarão decisões capazes de gerar impactos irreversíveis.

Nas últimas décadas, a sociedade avançou ao reconhecer grupos historicamente invisibilizados como sujeitos de direitos. Crianças, povos indígenas, pessoas com deficiência e diversos outros segmentos conquistaram instrumentos jurídicos que ultrapassam preferências ideológicas e impõem deveres permanentes ao Estado.

Talvez seja o momento de ampliar essa discussão para a própria natureza.

Reconhecer rios, florestas, áreas úmidas e ecossistemas como sujeitos de direitos não significa atribuir características humanas à natureza. Significa compreender que existem valores ecológicos fundamentais que não deveriam depender das conveniências políticas de cada governo. Significa reconhecer que a proteção da vida não pode ser tratada apenas como uma escolha administrativa ou eleitoral.

A defesa do meio ambiente não pode ser um adereço de campanha

No fundo, essa discussão vai além da conservação ambiental. Ela nos convida a rever uma separação artificial entre sociedade e natureza. Afinal, não estamos diante de dois mundos distintos. Somos parte da mesma trama ecológica que sustenta nossa existência.

A defesa do meio ambiente não pode ser um adereço de campanha, nem um tema mobilizado apenas durante períodos eleitorais. Precisa voltar a ser um critério real de avaliação dos governos.

E isso só acontecerá quando os votos daqueles que valorizam a natureza deixarem de ser considerados uma certeza e passarem a ser uma conquista.

Agencia Eco Nordeste

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