Por que a extrema-direita brasileira admira tanto Trump? por Valentina Santana Queiroz

24 de Jun / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

Nos últimos anos, o governo do Donald Trump gerou diversas opiniões ao redor do mundo. No contexto brasileiro e, especificamente durante o governo do Jair Bolsonaro, discursos nacionalistas, ataques à imprensa e polarização política são questões que aproximaram ambos mandatos. Em manifestações políticas da extremadireita brasileira, tornou-se comum encontrar bandeiras dos Estados Unidos compondo o cenário sendo erguidas
ao lado da bandeira nacional. Esse fato é mais do que uma questão política: apresenta como o Trump conseguiu se tornar símbolo de exemplo e admiração para a extrema-direita brasileira.

Durante o governo Bolsonaro, estratégias utilizadas pelo presidente dos Estados Unidos passaram a ser reproduzidas no Brasil. O “combate ao comunismo” discurso utilizado para promover a ideia de que governos de esquerda vão implementar o comunismo no mundo, afim de acabar com ele. Conflitos com imprensa tradicional, exemplo nacional sendo o Bolsonaro contra a Globo, que muitos apoiadores afirmam que a emissora é comprada e o próprio ex presidente divulgava suas opiniões contra a mesma. A força desses discursos também está relacionada ao crescente descrédito das instituições tradicionais. Segundo a pesquisa da Real Time Big Data (2026), 52% dos brasileiros afirmam não confiar na imprensa, cenário que favorece a ascensão de lideranças que se apresentam como únicas fontes confiáveis de informação e representação política.

Essa crítica a veículos de comunicação não é algo novo: durante ditaduras, censuras e discursos contra a informação correta são comuns, como era o caso da Ditadura Civil-Militar (1964-1985) ocorrida no Brasil que, até hoje cria consequências para o Estado, caso do trumpismo e o bolsonarismo, que utilizam desse viés para influenciar a polarização nas redes e manifestações conservadoras, por exemplo.

Nesse aspecto, ambos governos tem forte apego ao conservadorismo e religiões cristãs. Discursos como “Deus, pátria e família” se tornaram cada vez mais comuns e falas preconceituosas e retrógradas são disfarçadas de opinião e “valorização da família tradicional”. Trabalhar com base em religião é muito perspicaz e eficiente mundialmente pois, mexe com o emocional do público e, ao falar sobre cristianismo, esse ponto se torna ainda
mais forte, em face de que, majoritariamente, todos os países ocidentais o tem como sua matriz principal, em
especial os colonizados, caso dos Estados Unidos e do Brasil.

A admiração por Trump dentro da extrema-direita brasileira ultrapassa questões políticas, ela utiliza a principal característica da vertente: usufruir do emocional, simbólico e uma figura de “salvação” da população. Esse tipo de discurso ganha força principalmente em países marcados por processos de colonização, pobreza e desigualdade social, como é o caso do Brasil. Desde a colonização, a ideia de que existe um líder capaz de
“salvar” a população faz parte da construção política e social do país. Os colonizadores europeus chegaram ao território com o discurso de que trariam a maneira certa de viver. Ao longo da história, essa lógica continuou aparecendo: líderes passaram ser vistos como responsáveis por conduzir a sociedade para o “caminho certo”.

É justamente nesse ponto que política e religião acabam se aproximando. Discursos conservadores frequentemente utilizam símbolos religiosos e a ideia de um líder escolhido para proteger a sociedade de ameaças externas, como o comunismo, ou a destruição da “família tradicional”. Tanto o trumpismo quanto o bolsonarismo se fortaleceram através dessa narrativa, apresentando seus líderes como representantes de valores
morais e patrióticos que precisam ser defendidos pela população.

Dessa forma, a influência de Trump na extrema-direita brasileira não acontece apenas através de estratégias políticas, acontece também pela construção emocional de identificação e pertencimento. Em sociedades marcadas historicamente por desigualdade, violência e instabilidade, discursos de salvação encontram espaço para crescer, principalmente quando associados ao medo, religião e promessa de mudança social. O Trump é mais do que uma simples influência internacional, ele representa uma identidade política baseada no medo,
polarização e no grito social e constante por “salvação”. 

Valentina Santana Queiroz-Graduanda em Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia

Valentina Santana Queiroz-Graduanda em Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia

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