
Na Fazenda Humaytá, localizada a cerca de 40 km de Curaçá, Bahia, a tradição de acender a fogueira na véspera e Dia de São João é mantida. O cantor e compositor Luiz do Humaytá conta que Durante séculos, a fogueira cumpriu o seu papel de aquecer os viajantes durante longos trajetos. Nos festejos juninos, se tornou elemento obrigatório. Hoje é difícil pensar em festa de São João sem uma fogueira acesa.
Na terra onde nasceu Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Exu Pernambuco, na Fazenda Araripe, a tradição de acender a fogueira é sagrada.
De vários tamanhos, as fogueiras costumam ser as protagonistas das festas juninas, mas acender a fogueira durante esses festejos é algo que vem acontecendo desde o Século XVI, sendo uma tradição Ibérica trazida ao Brasil pelos portugueses.
A representatividade da fogueira, porém, vai além dos festejos juninos. O mestre em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Iphan/Unesco João Gustavo Andrade, explica que a fogueira pode ser considerada um atributo de valor para diversas manifestações culturais. É um símbolo de grande significado em diversas tradições, seja pela forma que as pessoas fazem a fogueira ou pela forma que lidam com esse elemento.
Como exemplo, temos as festividades católicas de São João e Santo Antônio. No caso das religiões de matriz africana, há um sincretismo religioso entre São João e Xangô, Orixá do trovão e da justiça, um grande guerreiro, cujo principal atributo seria o fogo e o povo de terreiro o celebra nesse período junino através da fogueira", disse.
De acordo com a jornalista Vivi Leão/G1 Alagoas, Aquecer, iluminar e ser um portal que conecta com o mundo sobrenatural. A tradição de acender a fogueira para muitos povos tem sido símbolo de conexão com a natureza e o sagrado durante rituais espirituais.
Entre os séculos XV e XVII, as mulheres que tinham clarividência desenvolvida e que cultuavam as forças da natureza foram apontadas como bruxas. A fogueira era algo sagrado para essas mulheres, que dançavam em volta do fogo e assim encontravam libertação. E foi pelas chamas das fogueiras que muitas foram queimadas na época da Inquisição.
Para os povos ciganos, a fogueira tem um significado muito especial dentro dos rituais. Aliás, é em volta dela que as festas acontecem para relembrar as origens nômades.
Entre os povos indígenas, o fogo é um dos elementos cultuados, assim como a água, o ar e a terra. Dentro das comunidades originárias, o fogo é utilizado para o preparo do alimento, durante rituais fúnebres e claro, nos rituais espirituais.
No xamanismo, o fogo tem o poder de dialogar com o divino. Nas cerimônias, a "chama sagrada" cumpre um papel de guiar o buscador e de fazer com que ele transite entre o mundo material e os diversos portais de todas as suas dimensões de fractalidades.
Dentro do catolicismo, os fiéis abraçaram a ideia da fogueira na celebração do São João fazendo um paralelo com o batismo de Jesus por João Batista. Mas, assim como em outras tradições espirituais, o fogo dentro da igreja católica também representa a capacidade de purificar e de transmutar sentimentos, como observou o padre Rodrigo Rios.
"Na Igreja Católica, acender fogueiras, como nas festas juninas, pode remeter a esses significados: alegria, festa da luz divina e a lembrança de que São João Batista anunciou Cristo como "a luz que ilumina as nações", disse o padre Rodrigo Rios.
"O fogo possui um profundo simbolismo dentro da tradição cristã, representando tanto a presença divina quanto a purificação. Geralmente é um dos símbolos para o Espírito Santo e também da luz de Cristo no mundo", disse .
Seja um elemento obrigatório nas festas juninas, seja um portal para a multidimensionalidade ou seja uma forma de aquecer corpos em dias frios, a fogueira segue sendo símbolo vivo e pulsante que transcende o tempo e barreiras culturais.
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