ENTRE O ACORDEON, A POESIA, A SIMPLICIDADE E O AMOR: UMA NOITE QUE PETROLINA NÃO ESQUECERÁ
Há noites que passam.
E há noites que permanecem.
A madrugada que uniu o domingo à segunda-feira no São João de Petrolina foi uma dessas noites destinadas a ficar. Não apenas na memória, mas naquele lugar mais profundo onde guardamos os encontros que nos transformam.
O que vivi naquela noite começou com a arte refinada de Waldonys.
Muitos o conhecem como um grande sanfoneiro. Mas Waldonys é mais do que isso. É um artista que consegue caminhar entre o popular e o erudito sem perder a alma do sertão. Seu acordeon carrega a tradição de Luiz Gonzaga, mas também a sofisticação dos grandes instrumentistas.
Enquanto a multidão esperava o forró, ele entregava cultura.
Entregava história.
Entregava Nordeste.
Entre uma música e outra, surgiam referências aos clássicos da nossa terra, aos versos de Patativa do Assaré, às histórias que moldaram gerações de nordestinos.
E havia também um momento que arrancava sorrisos do público: a apresentação de um integrante da banda que, aos mais de noventa anos de idade, tocava triângulo com uma vitalidade capaz de causar inveja a muitos jovens.
Ali estava uma lição silenciosa.
Porque a juventude verdadeira não está na idade.
Está na capacidade de continuar encantado pela vida.
Terminada a apresentação de Waldonys, o palco recebeu alguém que não canta, mas emociona como poucos.
Bráulio Bessa.
E foi então que o São João se transformou em poesia.
O poeta cearense entrou em cena carregando aquilo que talvez esteja faltando ao Brasil dos nossos dias: pertencimento.
Vivemos tempos estranhos.
Tempos em que as pessoas conhecem cada vez mais o mundo e, paradoxalmente, conhecem cada vez menos suas próprias raízes.
Tempos em que as redes sociais aproximam continentes, mas muitas vezes afastam as pessoas de sua história.
Foi nesse contexto que Bráulio surgiu.
Não para dividir.
Não para criar fronteiras.
Mas para lembrar quem somos.
E quando declamou seu poema "Quanto Mais Sou Nordestino, Mais Orgulho Tenho de Ser", algo especial aconteceu.
O público não estava apenas ouvindo versos.
Estava se reconhecendo neles.
Porque ser nordestino nunca foi apenas nascer numa região do mapa.
É carregar uma herança de resistência.
É aprender a florescer mesmo durante a seca.
É transformar dificuldade em coragem.
É fazer da esperança um modo de viver.
Enquanto o poeta falava, eu não conseguia deixar de pensar no quanto precisamos fortalecer nossa identidade cultural. Num país tantas vezes dividido por disputas estéreis, talvez seja justamente a cultura aquilo que ainda nos une.
Nossa música.
Nossa literatura.
Nossos sotaques.
Nossas histórias.
Nossa gente.
Quem conhece suas raízes dificilmente se perde.
E naquela noite, Bráulio Bessa nos lembrou disso.
Depois veio João Gomes.
E Petrolina simplesmente se apaixonou.
Não apenas pelo artista.
Mas pelo homem.
João possui algo raro nos tempos atuais: autenticidade.
Há nele uma simplicidade desarmante.
Uma timidez que ainda insiste em acompanhá-lo, mesmo diante de multidões.
Uma humildade que resiste ao sucesso.
E talvez seja exatamente isso que o torna tão querido.
João não representa apenas um fenômeno musical.
Ele representa uma geração inteira de nordestinos que aprenderam a sonhar sem abandonar suas origens.
Leva Pernambuco para os quatro cantos do país.
Leva o Nordeste.
Leva nossas referências.
Leva nossa identidade.
Leva o jeito de falar, de sorrir, de sofrer e de celebrar.
E faz tudo isso sem perder a essência.
O sucesso não lhe roubou a simplicidade.
Ao contrário.
Quanto maior ele se torna, mais evidente parece ser sua ligação com o lugar de onde veio.
E talvez seja essa a sua maior vitória.
Porque quem sabe de onde veio dificilmente se perde pelo caminho.
Eu aguardava ansiosamente pela apresentação de Dorgival Dantas.
Mas a vida, às vezes, escreve roteiros melhores do que aqueles que planejamos.
Um atraso inesperado mudou completamente meus planos.
E foi justamente aí que o destino resolveu me presentear.
Marisa Monte.
Confesso que não esperava.
E talvez por isso tenha sido tão especial.
Ela entrou no palco cercada por expectativas.
Havia comentários.
Havia dúvidas.
Havia críticas.
Parte da imprensa questionava sua presença numa festa tradicionalmente associada ao forró.
Mas a arte possui uma característica extraordinária: ela não precisa responder com argumentos.
Responde com beleza.
E Marisa respondeu cantando.
Cantou o Nordeste.
Cantou forró.
Cantou tradição.
Cantou "Estopim da Bomba".
Cantou "Xote das Meninas"(Mandacaru Quando Flora na Seca)".
Cantou clássicos que atravessam gerações e permanecem vivos no coração do povo.
Mas o mais bonito não foi apenas o repertório.
Foi o respeito.
Ela compreendeu a alma da festa.
Compreendeu que o São João não é apenas um evento.
É uma celebração da memória afetiva do Nordeste.
E então veio outro momento inesquecível.
No palco, três gerações de músicos dividiam a mesma apresentação.
Avô.
Pai.
Filho.
Uma imagem que parecia retirada de um verso de Luiz Gonzaga.
Uma imagem que dizia, sem palavras, que a cultura só permanece viva quando é transmitida.
De geração em geração.
De coração em coração.
Até que chegou aquele instante raro em que tudo silencia.
Os instrumentos.
A banda.
O tempo.
E sobra apenas a voz.
Marisa fez Petrolina cantar.
Fez os apaixonados se abraçarem.
Fez as lembranças voltarem.
Fez milhares de pessoas se tornarem uma só.
E quando cantou quase sem acompanhamento, apenas conduzida pela força da própria voz, parecia conversar diretamente com cada pessoa que estava ali.
Foi impossível não se deixar levar pela emoção.
Porque, ao final daquela noite, percebi que não estava voltando para casa apenas com lembranças de grandes apresentações.
Eu estava voltando para casa com algo maior.
Com o coração preenchido por pertencimento.
Com a alma reconciliada com minhas raízes.
Com a certeza de que o Nordeste continua sendo uma das mais belas expressões da cultura brasileira.
E então um verso insistiu em permanecer comigo, como se resumisse tudo o que eu havia vivido naquela madrugada:
"Sou feliz, alegre e forte. Tenho amor e muita sorte pra onde quer que eu vá."
Naquele instante, aquelas palavras pareciam não pertencer apenas a uma canção.
Pareciam descrever o próprio espírito nordestino.
Um povo que aprendeu a resistir sem endurecer.
A sofrer sem perder a ternura.
A enfrentar a seca sem abandonar a esperança.
A transformar luta em dignidade e saudade em poesia.
Eu fui ao São João esperando ouvir Dorgival Dantas.
Mas encontrei muito mais.
Encontrei a maestria de Waldonys.
Encontrei o orgulho nordestino nos versos de Bráulio Bessa.
Encontrei a simplicidade encantadora de João Gomes.
Encontrei a grandeza artística de Marisa Monte.
E voltei para casa com a certeza de que, enquanto houver uma sanfona tocando, um poeta declamando, um jovem levando consigo a identidade do seu povo e uma canção capaz de unir milhares de vozes numa só emoção, o Nordeste continuará ensinando ao Brasil quem ele realmente é.
E eu fui embora com a alma agradecida.
Porque há noites que passam.
E há noites que permanecem para sempre.
Amor, Marisa. Amor I Love You.
Rivelino Liberalino-Bel. Rivelino Liberalino OAB/PE 534/B
advogado militante nas áreas cível e trabalhista, pós graduado em Direito Tributário pelo IBPEX- Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão.
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