Até onde o dinheiro é o mandante do jogo?

23 de Jun / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

O futebol é o esporte mais consumido do mundo, e no Brasil, isso se intensifica ainda mais. Pesquisa realizada pela CBF demonstra que 73% da população brasileira acompanha o futebol de alguma forma, ou seja, mais da metade da população dedica pelo menos uma parte das suas horas vagas para vibrar com seu time do coração.

Por trás da paixão nacional, existe uma realidade menos visível: a desigualdade estrutural que limita o crescimento de centenas de clubes brasileiros.

Nem todos desfrutam dessa prática tão tranquilamente, ou melhor, nem todos desfrutam de maneira livre do futebol, sem frustrações recorrentes por questões de infraestrutura. E é justamente esse lado do futebol no qual pretendo explorar aqui.

 Até quando o dinheiro vai ser o grande limitador dos times pequenos? Nos últimos anos temos visto cada vez mais times em menor escala como grandes destaques no futebol brasileiro, como por exemplo o Mirassol que no ano passado (2025) chegou com tudo na série A, disputando pelo título e garantindo sua vaga na libertadores, ou até mesmo o Novorizontino que saiu vitorioso contra os gigantes do estado de São Paulo,
Corinthians e Santos, se tornando vice campeão do Paulistão.

 No entanto, esses dois times são exceções entre um número avassalador de clubes de menor investimento que são esmagados pelo sistema futebolístico diariamente, alguns tendo até mesmo que parar as atividades por falta de estruturas para treinos, uniformes e assistência psicológica para jogadores e funcionários do time.

 “Não são muitos recursos que um time pequeno possui. Temos que superar, sonhar com dias melhores e torcer para que o nosso profissional não caia de divisão, pois são eles que mantêm o sonho do presidente e dos meninos da base” afirma Rodrigo Barreto, ex diretor de futebol do clube Cabofriense, em 2017.

A realidade descrita por Rodrigo Barreto não se restringe ao Cabofriense. Ao trazer o debate para a realidade regional de Juazeiro, encontramos o Juazeirense, clube de futebol do município que atua na quarta divisão do campeonato Brasileiro. Apesar da torcida vibrante, de jogadores com potencial para adentrar clubes de maior prestígio, o que acontece com o Juazeirense não tem ligação nenhuma com talento, mas sim com uma desorganização financeira e a falta de infraestrutura para treinos e jogos importantes no estádio Adauto Moraes, que tem sua reforma negligenciada há anos, travando o time na posição de inferioridade, não só em escala nacional, mas também estadual.

 A torcida Jovem Juazeirense (TJJ), tem suportado todos esses anos, de maneira admirável, nunca deixando de apoiar o time. No entanto, devemos aceitar essa realidade? Apenas nos conformar com a inferioridade eterna? Para a torcida TJJ, a tolerância tem se tornado algo escasso nos últimos dias, e a paciência não se faz mais tão presente quanto se fez antes.

É justamente nesse ponto que surge a questão central: De quem é a culpa? Quem responde pela manutenção dessa desigualdade social no mundo do esporte? Esse é um questionamento muito complexo, que não sou eu, nem você leitor que vai conseguir responder de maneira definitiva. Porque, afinal, não se trata de um único fator, mas de uma combinação de elementos estruturais.

O futebol chegou em um nível de profissionalização em que quase tudo funciona de maneira consolidada, e esse sistema, raramente abre brecha para imprevisibilidades, raramente abre espaço para que novos protagonistas surjam. Isso é o primeiro ponto no qual impede os destaques de times pequenos, mas para além disso, temos que levar em consideração que os times já estabelecidos, financiam assistência em tempo integral
para os jogadores, psicólogos, fisioterapeutas, treinamento reforçado. Tudo isso é garantido, e quem não tem? Como consegue manter o time estável? Quem cuida das lesões dos times pequenos? Quem lava o uniforme que precisará ser usado novamente no próximo jogo quando sequer há estrutura suficiente?

A desigualdade social, não deixa de existir quando entra em campo, e o jogo de igual para igual, passa a ser uma mera ilusão social. As desigualdades, seja nas ruas ou no esporte, ainda tem o mesmo motivo: Dinheiro. E é muito complexo reformular esses times com renda reduzida para campeonatos de maior prestígio. No entanto, não é impossível, o que vemos é o Mirassol e o Novorizontino, mostrando que ainda existe um lugar de pertencimento para esses times menores, com torcidas vibrantes que estão sempre apoiando o time.

O que cabe a nós Juazeirenses, é acompanhar o time, torcer, e contribuir de alguma forma para o esporte cultural da nossa cidade. Lembre-se: Nós também fazemos parte dessa história.

Beatriz Gomes

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