ARTIGO - A ESPETACULARIZAÇÃO DA DOR: QUANDO A TRAGÉDIA VIRA ENTRETENIMENTO DE BOLSO

17 de Jun / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

Existe uma pergunta específica que assombra a humanidade há tempos. Todo mundo quer saber quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Não. Você não está no artigo errado.

Essa dúvida é essencial para gerar um outro questionamento um pouco mais complexo (e muito mais necessário): seria a mídia sensacionalista a grande culpada pela espetacularização de tragédias ou um público que acompanha o absurdo como se fosse o capítulo final de uma novela das nove?

Independentemente da resposta, uma coisa é possível afirmar: é fundamental analisar como a catástrofe se tornou a moeda mais lucrativa dos últimos anos. Nem tudo vira notícia dentro do jornalismo.

Um bom profissional sabe filtrar o que realmente merece uma matéria. E como ele faz isso? Seguindo os “critérios de noticiabilidade”. Eles existem para selecionar o que o cidadão realmente precisa saber.

Alguns desses critérios são: impacto público, no qual se verifica a relevância daquele fato; atualidade, pois as pessoas precisam estar cientes do que acontece no cotidiano; e compromisso com o valor social: informar e fomentar o senso crítico das pessoas. Entretanto, o sensacionalismo (que, de antemão, não chamo de jornalismo) distorce cada uma dessas regras.

O impacto público se transforma na necessidade de chocar; a atualidade vira o desespero de dar o furo sem a mínima apuração; e, no lugar do valor social da notícia, entra aquilo que vai gerar engajamento e, consequentemente, lucro.

Esse fenômeno não começou com a era das páginas de fofoca do Instagram ou dos vídeos curtos do TikTok. Em 2008, o Brasil acompanhou o chamado "Caso Eloá" como se assistisse a um filme de terror psicológico.

Uma adolescente de 15 anos foi sequestrada pelo ex-namorado e mantida em cárcere privado. Ela permaneceu refém por quase cinco dias, até que o criminoso atirou nela. A jovem não resistiu e faleceu. O que a mídia brasileira fez? Transmitiu ao vivo as negociações com o sequestrador. Câmeras cercaram o local do crime e registravam cada passo da operação policial, permitindo que o criminoso acompanhasse pela televisão as estratégias utilizadas pelas autoridades. Além disso, emissoras exibiam comerciais, aproveitando-se do sucesso de audiência de uma tragédia que acabou se tornando fatal.

Se anos atrás a espetacularização dependia da televisão, hoje acompanhamos (e distribuímos) o absurdo na palma da nossa mão.

Em 2021, uma das maiores artistas do país, Marília Mendonça, sofreu um acidente aéreo e perdeu a vida. Algum tempo após a tragédia, imagens de seu corpo no IML (Instituto Médico Legal) foram vazadas e divulgadas por veículos e usuários da internet como se estivessem compartilhando fotos de um campo de flores.

Até mesmo uma cantora amada por milhões de brasileiros teve sua dignidade violada após a morte, ignorando-se o impacto que isso poderia causar à família, aos amigos e aos fãs. Ignorou-se, especialmente, o filho da artista, que perdeu a mãe ainda criança.

O caos que descrevi já havia sido conceituado em 1967 pelo escritor francês Guy Debord, na obra A Sociedade do Espetáculo. Nela, ele argumenta que nos transformamos em espectadores da vida alheia e das tragédias do mundo.

Debord também destaca como a sociedade perde seu senso crítico e sua empatia, pois, quanto mais consumimos imagens e acontecimentos como entretenimento, mais insensíveis nos tornamos. Afinal de contas, talvez não devêssemos refletir tanto sobre o ovo e a galinha, mas sim sobre como a mídia sensacionalista existe porque lucra (e só lucra porque há um imenso público que a acompanha).

Você, como leitor, analise aquilo que segue, curte, comenta e compartilha. O que você faz para impedir que a engrenagem do espetáculo continue funcionando?

Escrito por Bárbara Damásio, estudante do primeiro período do curso de Jornalismo em Multimeios.

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