Artigo - Uma paixãoi capaz de parar um país

13 de Jun / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

Era apenas um jogo de futebol. Mas quem viveu aquelas Copas sabe que, para o brasileiro, uma Copa do Mundo nunca foi apenas futebol.

Estamos próximos do início de mais uma Copa do Mundo e, como sempre acontece, o Brasil vive a expectativa de conquistar mais um título. 
Não importa o que dizem os especialistas ou comentaristas esportivos. 

Mesmo aqueles que afirmam que a Seleção já não é mais a mesma acabam torcendo para que vença os dois primeiros jogos.
Depois, juntam-se à torcida e dizem que sempre acreditaram.

O futebol está no sangue do brasileiro.

Lembro-me da Copa de 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial. 

As coisas eram muito mais difíceis do que hoje.

 Poucas casas possuíam rádio, e televisão era artigo de luxo.

 Em um dos jogos, Rivellino marcou um golaço. 

A sala lá de casa estava cheia de vizinhos e amigos, todos reunidos em volta de um rádio Zilomag. 
Quando Valdir Amaral gritou o gol, foi uma explosão de alegria.

Parecia que a casa inteira tinha balançado.

Naquela época, os clubes que mais forneciam jogadores para a Seleção eram o Santos de Pelé e o Botafogo de Gérson e Jairzinho. Havia também Rogério, grande ponta-direita, que acabou cortado por causa de uma contusão. 

Mesmo assim, permaneceu com o grupo no México, demonstrando o espírito de união daquela equipe inesquecível.

Já na Copa de 1982, a televisão já estava presente na maioria das casas. 

No dia da nossa grande frustração contra a Itália, eu estava em Livramento de Nossa Senhora. Passei a manhã no campo, almocei no hotel e fiquei aguardando a partida. 

A expectativa era enorme.

Até hoje, muitos brasileiros consideram aquela seleção uma das melhores de todos os tempos.

A discussão permanece: a melhor foi a de 1970 ou a de 1982?

Quando o jogo começou, o nervosismo tomou conta de todos. Jogadores como Toninho Cerezo, que raramente errava um passe, parecia não estar em um bom dia. 

E foi justamente um erro dele, no meio de campo, que permitiu a Paolo Rossi avançar e marcar. 

Naquele dia, Rossi fez jus à fama de carrasco. 

O Brasil não conseguiu mais se reencontrar em campo. 

Perdemos, fomos eliminados e, para nós, a Copa terminou ali.

Como era sábado, eu havia programado passar o fim de semana em Livramento de Nossa Senhora.

 Mas, depois daquela derrota, não existia mais clima para passeio, conversa ou diversão. 

Assim que o jogo terminou, peguei a estrada de volta para Juazeiro.

Atravessei grande parte da Chapada Diamantina e o que vi pelo caminho jamais esqueci. 

As cidades pareciam desabitadas. Bares fechados, clubes vazios, ruas silenciosas.

Passei por Morro do Chapéu, por Jacobina e por outras localidades, e a sensação era a mesma em todos os lugares. 

Parecia que havia acontecido uma tragédia. 

Era uma tristeza coletiva, dessas que parecem pesar no peito e doer nos ossos.

Quando cheguei a Juazeiro, encontrei as ruas enfeitadas com bandeirolas, o chão pintado de verde e amarelo, tudo preparado para a festa que não aconteceu. Mas faltava o principal: o povo.

A maioria estava recolhida dentro de casa. 

Os poucos que encontrei pelas ruas carregavam no rosto um semblante de profunda tristeza, como se tivessem perdido alguém muito próximo.
Hoje, os tempos são outros.

A tecnologia mudou, a forma de acompanhar os jogos mudou, e até a relação do brasileiro com a Seleção parece diferente. 

Mas, quando chega uma Copa do Mundo, algo ainda desperta dentro de nós. 

Reclamamos dos jogadores, criticamos os dirigentes, duvidamos das chances do Brasil. Porém, quando a bola começa a rolar, renasce a

esperança.
Porque o futebol nunca foi apenas um esporte. 

Durante muitos anos, foi a única coisa capaz de reunir milhões de brasileiros em torno de um mesmo sonho. 

Foi a única coisa capaz de silenciar ruas, fechar bares, esvaziar cidades e fazer um país inteiro prender a respiração diante de um rádio ou de uma televisão.

Era, e talvez ainda seja, uma paixão capaz de parar um país.

Obrigado 

Luiz Alves

© Copyright RedeGN. 2009 - 2026. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do autor.