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A convocação do Concílio de Niceia, em 325 d.C., representou muito mais do que uma simples reunião de bispos. Foi a tentativa do imperador Constantino I de preservar a unidade do Império Romano num momento em que o cristianismo crescia rapidamente e deixava de ser uma fé perseguida para transformar-se numa força política e social.
No centro dessa controvérsia estava Ário, presbítero de Alexandria. Para ele, Jesus Cristo - o Logos, o Filho - não era eterno como o Pai nem partilhava da mesma substância divina.
O Filho teria sido criado por Deus antes de todas as coisas, sendo a mais elevada de suas criaturas, superior a tudo o mais, mas ainda assim subordinado ao Pai. A frase atribuída aos arianos - “houve um tempo em que o Filho não existia” - resumia essa convicção.
A posição de Ário procurava preservar a transcendência absoluta de Deus. Se o Pai é único, infinito e incomparável, pensava ele, então Cristo não poderia ser idêntico ao Pai sem que se apagasse a diferença entre Criador e criatura. Ao mesmo tempo, essa visão permitia compreender Jesus como alguém verdadeiramente humano: capaz de sofrer, obedecer, sentir angústia e experimentar o tempo como qualquer ser humano.
Sob esse aspecto, a concepção ariana apresenta certa afinidade estrutural com a visão islâmica sobre Alá e o profeta Maomé. No islamismo, Alá é único, absoluto e incomparável. Maomé não participa da natureza divina; é apenas o último e mais importante dos profetas, escolhido para transmitir a revelação. De modo semelhante, Ário via Cristo como mediador entre Deus e os homens, exaltado acima de toda a criação, mas sem compartilhar plenamente da essência divina do Pai.
Os bispos reunidos em Niceia, porém, seguiram outro caminho. Sob o patrocínio de Constantino, formularam o Credo Niceno, declarando que o Filho era “gerado, não criado, consubstancial ao Pai” (homoousios tô Patri). Com essa expressão, afirmavam que Pai e Filho possuíam a mesma natureza divina. Cristo não era uma criatura sublime, mas o próprio Deus tornado visível.
As ideias de Ário foram condenadas como heréticas. Ele foi exilado, seus escritos foram queimados e seus seguidores perderam influência. A decisão, porém, não teve apenas significado religioso. Para Constantino, a unidade doutrinária era também uma questão de governo. Um império dividido por disputas teológicas seria mais difícil de controlar. Assim, o Concílio de Niceia transformou uma discussão filosófica em norma oficial, fazendo do dogma um instrumento de autoridade política.
Foi nesse sentido que Niceia marcou o início de uma forma de teocracia cristã: a partir dali a ortodoxia religiosa passou a ser definida com o apoio do poder imperial, e discordar da doutrina deixou de ser apenas um debate intelectual para tornar-se também um problema político.
Entretanto, a vitória em Niceia não encerrou a controvérsia. O arianismo continuou vivo durante décadas, influenciando bispos, imperadores e povos germânicos convertidos ao cristianismo. Em 381 d.C., no Concílio de Constantinopla, a doutrina nicena foi reafirmada de modo mais definitivo.
É possível imaginar como teria sido a história do cristianismo se a posição de Ário tivesse prevalecido. Talvez a religião tivesse desenvolvido uma imagem de Deus mais estritamente transcendente, reservando ao Pai a condição de único ser absoluto e concebendo Cristo como mediador exemplar, próximo da experiência humana. Nesse caso, o cristianismo poderia ter dado menos importância às fórmulas metafísicas sobre a natureza divina e mais atenção à prática moral, à compaixão, à justiça e à coerência entre fé e vida.
Mas menos dogma não significaria, necessariamente, mais tolerância. Toda comunidade cria fronteiras, regras e formas de pertencimento. Mesmo sem Niceia, outras doutrinas e outras exclusões provavelmente surgiriam.
A disputa entre Ário e o Concílio de Niceia continua atual porque mostra que as ideias religiosas nunca permanecem apenas no plano abstrato. Elas moldam instituições, legitimam poderes, definem identidades e influenciam profundamente a maneira como os seres humanos vivem, julgam e se relacionam entre si.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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