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Nas décadas de 1960/1970, livros de bolso, baratos e fáceis de carregar eram a alegria dos estudantes e dos curiosos por história, política, filosofia e aprendizado de idiomas estrangeiros. Foi em um desses volumes que conheci Baruch Spinoza, filósofo judeu nascido na Holanda em 1632, de origem portuguesa.
Li sua obra-prima, Ética (Ethica ordine geometrico demonstrata) — e, a princípio, pouco entendi. Vindo de uma educação católica rígida, achei o texto denso e desafiador, sobretudo porque Spinoza propunha algo radical e inimaginável: a diferenciação racional, sob o ponto de vista religioso, entre criador e criatura.
Para ele, tudo no universo ocorre por necessidade. A liberdade e a felicidade humanas surgem quando compreendemos essa ordem necessária. Deus, segundo Spinoza, não é um ser pessoal separado do mundo, mas a substância infinita que constitui tudo o que existe, a razão de sua própria existência e, por extensão, de todas as coisas. As paixões, nessa visão, são estados de passividade determinados por causas externas. A verdadeira felicidade é uma alegria ativa, resultado do conhecimento adequado da realidade.
Spinoza constrói, assim, um sistema que integra metafísica, ética e política, sustentado pela ideia de que entender as leis da natureza é o caminho para a liberdade humana, livre de recalques e frustrações. Ele rejeita tanto o ateísmo simplista quanto a religião tradicional. Considera-se religioso no sentido de sentir assombro diante da ordem do universo, mas não no sentido de crer em um Deus pessoal que intervém milagrosamente na atribulada vida dos humanos.
Alguns séculos depois, Albert Einstein usaria a célebre expressão “o Deus de Spinoza” para dizer que também não acreditava em um Deus que intervém nas ações humanas. Einstein afirmou: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia de tudo o que existe, não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens.” Para ambos, a razão seria o caminho para compreender a realidade. Spinoza via corpo e mente como duas expressões da mesma realidade.
Há, como se vê, afinidade entre as visões de Spinoza e de Einstein, embora também se observem diferenças de método e origem. Spinoza ergueu um sistema metafísico rigoroso em pleno século XVII; Einstein chegou a uma sensibilidade semelhante pela via empírica e matemática da física no século XX. Ambos, cada um à sua maneira, apontam para uma reverência racional diante da ordem do mundo.
Nos dias atuais, debates sobre espiritualidade e ciência continuam a evoluir. Ideias que buscam conciliar o não-determinismo, a liberdade e uma ética sem autoridades religiosas tradicionais podem dialogar com o legado spinozista, desde que preservem o rigor conceitual e evitem confundir metáfora com prova científica.
Nesse diapasão, impõe-se a rejeição dos dois extremos que, embora opostos na superfície, emergem e se converge no efeito nefasto de empobrecer o debate filosófico. De um lado, o fundamentalismo, que sacrifica a complexidade da história em nome de uma fé cega, impermeável ao diálogo e à autocrítica, reduzindo a tradição a um dogma fossilizado. Do outro, o ceticismo inconsequente, que descarta toda experiência de fé sob o pretexto de uma historicidade mal compreendida, convertendo a crítica em negação sistemática e incapaz de reconhecer a dimensão simbólica, ética e existencial que a fé pode assumir.
Ambas as posturas extremistas, ao absolutizarem suas premissas, tornam-se incapazes de perceber a riqueza do entrelaçamento entre fé e história, razão e tradição, crítica e transcendência. O fundamentalismo fecha-se ao tempo; o ceticismo fecha-se ao sentido. O primeiro idolatra o passado; o segundo o desqualifica. Em comum, compartilham a recusa de pensar — e é precisamente essa recusa que a filosofia não pode tolerar.
Uma abordagem verdadeiramente filosófica exige, ao contrário, a disposição para reconhecer a historicidade da fé sem dissolvê-la e para acolher a crítica histórica sem transformá-la em niilismo. Trata-se de cultivar uma atitude que não teme a complexidade, que não se satisfaz com respostas fáceis e que compreende que a verdade, quando existe, não se revela aos extremos, mas àqueles que se dispõem a caminhar com rigor, abertura e humildade intelectual.
Tanto Spinoza quanto Einstein não viveram, contudo, o suficiente para testemunhar um projeto ainda mais radicalmente racional: o surgimento da chamada “religião quântica”, ainda em fase embrionária. Esta trata de uma tentativa de abrir espaço para o não determinismo e para a liberdade de pensar e agir, sem a tutela das autoridades religiosas tradicionais, oferecendo caminhos para que o conhecimento humano não distorça a descrição da realidade. Em suma, que a realidade seja, para o ser humano, dependente do contexto conceitual — e não fruto de mera especulação desvinculada de critérios racionais.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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