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Há dias em que Juazeiro acorda com cheiro de rio. Não é só o Velho Chico passando ali, paciente, como quem sabe que o tempo tem suas manhas. É também a memória que vem boiando na superfície: um acorde de João Gilberto, uma carranca que vigia o mundo, um artesão que esculpe silêncio e madeira ao mesmo tempo.
Juazeiro é assim — uma cidade que carrega cultura até no jeito de caminhar. Basta prestar atenção.
O garoto que atravessa a praça levando sonhos de pura musicalidade, a senhora que vende dindim/sacolé/picnicna porta de casa e conta histórias como quem borda, o pescador que conhece o rio pelo nome. Tudo isso é cultura, mesmo quando ninguém percebe.
Outro dia, enquanto observava o movimento da orla, fiquei pensando que talvez esteja na hora de Juazeiro se olhar no espelho. Não aquele espelho que só mostra o que a gente já sabe, mas o outro — o que revela o que podemos ser. Porque cultura não é só passado. É futuro também.
Imaginei então um Centro João Gilberto, onde as crianças descobrissem que música não nasce pronta, nasce de curiosidade. Pensei numa Casa das Carrancas, onde os mestres artesãos ensinassem que tradição é coisa viva, que respira. Visualizei feiras criativas, festivais que iluminassem a cidade, roteiros culturais que levassem turistas e moradores a redescobrir o que sempre esteve ali.
E, no meio dessas ideias todas, percebi uma coisa simples: Juazeiro já tem tudo isso dentro de si.
Falta só organizar, cuidar, acreditar. Falta transformar o que é vocação em política pública, o que é talento em oportunidade, o que é memória em futuro.
A cultura daqui não pede muito. Pede espaço, respeito e continuidade. Pede que a gente entenda que ela não é enfeite — é fundamento. É o que faz a cidade ser mais do que ruas e prédios. É o que faz Juazeiro ser Juazeiro.
Talvez por isso eu insista tanto nesse assunto. Porque quando a cultura floresce, a cidade inteira floresce junto. E Juazeiro, com sua música, seu rio, suas histórias e seus artistas, merece florescer sempre.
No fim das contas, esta crônica é só um lembrete: a cultura já está aqui, pulsando. Cabe a nós abrir caminho para que ela siga adiante, bonita e teimosa, como o Velho Chico.E aqui vão cinco pontos (ou eixos) para fazer toda a diferença:
3. Propostas para um Plano de Ações Culturais em Juazeiro-BA
3.1. Música e Patrimônio Imaterial
- Criação do Centro João Gilberto de Música e Artes, com acervo, formação e programação
contínua.
- Instituição do Festival Internacional de Bossa Nova e Música de Juazeiro.
- Programas de educação musical nas escolas, com foco em repertórios regionais.
- Mapeamento e registro das tradições musicais e dos mestres da cultura local.
3.2. Artes Visuais, Artesanato e Memória
- Implantação da Casa das Carrancas do São Francisco, dedicada à preservação e formação de artesãos.
- Certificação e apoio à comercialização do artesanato tradicional.
- Inventário do patrimônio cultural material e imaterial do município.
- Incentivo a projetos de arte urbana que dialoguem com a história e a paisagem local.
3.3. Turismo Cultural e Economia Criativa
- Criação do Roteiro Cultural do Velho Chico, integrando música, gastronomia e experiências ribeirinhas.
- Revitalização de espaços culturais e turísticos, como orlas, praças e mercados.
- Realização de feiras criativas periódicas.
- Promoção de eventos âncora que reforcem a identidade cultural da cidade.
3.4. Cultura, Educação e Inclusão
- Programa Cultura na Comunidade, com oficinas e apresentações em bairros e distritos.
- Fortalecimento das bibliotecas públicas como espaços de convivência e formação leitora.
- Editais de fomento para jovens criadores e coletivos culturais.
- Ações de acessibilidade cultural para pessoas com deficiência.
3.5. Governança Cultural
- Estruturação do Sistema Municipal de Cultura (Conselho, Plano e Fundo).
- Capacitação de gestores, artistas e produtores.
- Criação de uma plataforma digital da cultura, reunindo agenda, editais e mapeamentos.
- Parcerias com universidades, instituições culturais e iniciativa privada e o que já está criado, que então seja revitalizado.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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