
Tudo o que o mundo não desejava era um novo conflito para desestabilizar ainda mais a geopolítica global, mas é isso que acabamos tendo desde que EUA e Israel fizeram do Irã o alvo da vez, como se já não bastasse a guerra que envolve Rússia e Ucrânia, que completou quatro anos no último dia 24 de fevereiro.
Para a economia mundial, a eclosão desse novo conflito no Oriente Médio não poderia ser pior, de vez que coloca em risco o abastecimento de alimentos.
A Rússia, dos maiores produtores mundiais, anunciou que vai suspender por um mês as vendas de fertilizantes para priorizar os agricultores locais. Antes do início da guerra, um terço do comércio global de fertilizantes passava pelo Estreito de Ormuz, controlado pelos iranianos. Além disso, cerca de 20% do petróleo mundial passa por aquela região. Os impactos, no entanto, se estendem até mesmo pela área da saúde – e o pior é que o confronto parece longe de acabar.
Para o Brasil, pelo menos por enquanto, o clima ainda é de certa estabilidade, como admite o professor Paulo Sérgio Pavinato, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiros (Esalq) da USP. Isso porque, segundo ele, a chegada de fertilizantes que sai do Oriente Médio não foi afetada até o momento no Brasil, o que se tem agora é um impacto grande nos preços desse tipo de produto, como a ureia, por exemplo, que subiu quase US$ 300 a tonelada.
“Esses preços vão afetar com certeza o nosso uso de fertilizantes na agricultura”, afirma, uma situação nada desejável quando se sabe que o País hoje importa mais de 80% dos fertilizantes consumidos na agricultura. “Nós importamos de nitrogênio, por exemplo, 95%, nossa produção nacional é praticamente nula”. O mesmo acontece com o potássio, enquanto o fosfato representa em torno de 70% da importação brasileira. Por conta disso, o suprimento para atender demandas futuras pode estar ameaçado.
Por sorte, o Brasil vive um momento em que a demanda por fertilizantes não é tão grande, já que a agricultura está num período de entressafra, mas a situação pode se agravar a partir do segundo semestre do ano, quando do estabelecimento da nova safra. Pavinato observa que o preço dos fertilizantes representa um efeito direto na economia, já o preço dos combustíveis tem um efeito direto e também indireto, “respingando” no transporte dos produtos agrícolas, com a consequente elevação do custo dos alimentos.
O professor Pavinato diz que o País possui um plano nacional de fertilizantes para desenvolver a produção nacional num longo prazo. “Se pensa aí que, até 2050, o Brasil poderia produzir, nos investimentos que estão planejados, 50% da demanda. O Brasil nunca vai ser autossuficiente em fertilizantes, porque não temos reservas de fosfato, de potássio, suficientes para isso, e a energia para a produção de hidrogenados é muito cara para nós. Nós vamos depender da importação de fertilizantes, de qualquer forma, no longo prazo também”. O fundamental é tentar minimizar esse impacto, acrescenta ele, lembrando, todavia, que os fosfatados hoje também têm uma importância muito grande na produção de baterias elétricas para veículos, além de serem usados na conservação de alimentos, principalmente os processados, o que pode, no futuro, aumentar a dependência nacional em relação a outros países produtores de fosfatados.
A boa notícia é que as exportações brasileiras não devem sofrer muito com a guerra no Oriente Médio, já que a região detém apenas uma parcela dos alimentos produzidos pelo País.
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