Crônica - NORMATIVIDADE GRAMATICAL: A Língua Brasileira Precisa de Reforma

18 de Feb / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

Ao analisar comentários disponibilizados em redes sociais, observa-se uma preocupação excessiva com a forma de escrever e pouca atenção ao fato de que, apesar das diversas normatizações já realizadas, a escrita utilizada ainda hoje remonta ao início do século XX, quando Portugal promoveu unilateralmente sua primeira reforma após a Proclamação da República naquele país.

No caso brasileiro, de outra banda, a primeira tentativa de reunificação linguística resultou no Formulário Ortográfico de 1943, que aboliu o acento gráfico das palavras terminadas em “i” e “u” tônicos (como em “tupi” ou “caju”), desde que não fossem precedidos por outra vogal (como em “açaí” ou “baú”). Naquele período, também se recomendava que os nomes de dias, meses e estações do ano fossem grafados com iniciais minúsculas, regra desprezada por quem deveria cuidar exclusivamente da educação e disciplina escolar.

Posteriormente, emergiu a preocupação com a ausência de padronização da nomenclatura gramatical nos livros didáticos. Embora diversas propostas tivessem sido apresentadas, nenhuma havia sido concretizada até então. Essa constatação revela que não é necessário ser especialista em linguística para aprender gramática, pois certas regras permanecem pouco assimiladas em razão de sua escassa aplicabilidade no cotidiano. Contudo, é fundamental dominar regras básicas de concordância e ortografia, dentro do moderno conceito de língua para propósitos específicos, conhecido no Brasil como língua instrumental.

A língua, contudo, também é uma construção individual: o nível de fluência varia conforme a escolaridade, a dedicação ao estudo, a profissão escolhida, dentre vários outros fatores. As regras gramaticais funcionam como suporte à escrita, sendo importante lembrar que escrever é um ato criativo, fruto de conhecimento linguístico e de uma técnica adquirida por meio da organização mental. Em resumo, falamos de uma maneira e escrevemos de outra.

A fala deve fluir naturalmente na comunicação, sem fiscalização, já que o ser humano se comunica por necessidade e se expressa por condição intelectual e emotiva. A partir dessa primeira conquista, passamos a dominar a leitura e a escrita, utilizando fonemas ou grupos de fonemas dotados de significação.

Todas as línguas constituem-se, evidentemente, em sistemas normativos que regulam e viabilizam o uso de suas unidades e estruturas. Essas normas, didaticamente divididas em três, devem ser inteligentemente aprendidas: (a) Regras para a formação de palavras derivadas; (b) Regras para a ordenação das palavras; e (c) Regras para a escolha adequada da palavra em determinada situação.

Nesse contexto, é relevante observar que qualquer lusoparlante rejeitaria a estrutura “ganhei carro um vermelho”, pelo simples fato de o artigo definido masculino “um” aparecer após o substantivo carro. Em nossa língua, o artigo obrigatoriamente precede o substantivo: “ganhei um carro vermelho”.

O mesmo falante poderia questionar o uso proclítico do pronome oblíquo em “me dá um cigarro aí!”, mas não rejeitá-lo. O questionamento decorre do conhecimento da norma culta, que considera inadequado iniciar uma frase com pronome oblíquo átono.

A análise da normatividade gramatical brasileira revela uma tensão permanente entre tradição e inovação. Por um lado, há a necessidade de preservar a inteligibilidade e a unidade da língua; por outro, existe a urgência de adaptar a norma às práticas comunicativas contemporâneas.

O Brasil, país de dimensões continentais e de intensa diversidade cultural, apresenta variações linguísticas que desafiam a ideia de uma norma única e rígida. O português falado em diferentes regiões, classes sociais e contextos profissionais evidencia que a língua é viva e plural. Ignorar essa realidade significa reforçar preconceitos linguísticos e perpetuar exclusões sociais.

Além disso, a ascensão das tecnologias digitais e das redes sociais transformou profundamente os modos de comunicação. A escrita rápida, abreviada e informal tornou-se parte integrante da vida cotidiana. Nesse cenário, insistir em regras pouco funcionais pode gerar distanciamento entre a norma e o uso real, criando barreiras artificiais entre o “certo” e o “errado”.

Portanto, uma reforma da Língua Brasileira deveria buscar: (a) Simplificação de regras que não possuem relevância prática; (b) Reconhecimento da variação linguística como parte legítima da identidade nacional; (c) Adequação da norma culta às necessidades comunicativas contemporâneas; (d) Integração entre fala e escrita, reduzindo a distância artificial entre ambas.

Mais do que uniformizar, trata-se de democratizar o acesso à língua, permitindo que ela seja instrumento de inclusão e não de exclusão.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.

© Copyright RedeGN. 2009 - 2026. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do autor.