
A capacidade de “ouvir” a “fala” do outro é um valor e uma virtude; além de necessária à convivência entre os indivíduos. Dela dependeu e depende nossa sobrevivência, seja como espécie, seja como memória coletiva. (As aspas nos dois casos acima são para indicar que há variados modos de ouvir e de falar.)
Não é difícil imaginar o que teria sido dos povos, antes da escrita (e mesmo depois dela), sem a transmissão da memória ancestral, o que só foi possível por meio da oralidade. (E não é demais frisar que onde há oralidade há, forçosamente, alguém que fala e alguém que ouve.)
Houve um tempo – e não vai muito longe –, em que ouvir, além de necessário, era uma questão de prazer.
Recordo as rodas de conversa, geralmente à noite, quando homens e mulheres, depois de uma jornada inteira de trabalho, sentavam para relatar as experiências do dia, ou então para ouvir os mais velhos desfiarem histórias de outros tempos.
Mas parece que estamos perdendo a capacidade de ouvir. (Para não dizer a paciência.) E quando se perde a capacidade de ouvir, perde-se também a capacidade de interagir. O que acaba levando pras cucuias qualquer possibilidade de convívio.
As redes sociais (ou digitais), sem querer desmerecer seu potencial de aproximação, não só não cumpriram o papel que delas esperávamos, ou seja, o de maior integração entre os indivíduos, como parece alargar o fosso da indiferença, tornando as pessoas, muitas vezes, mais distantes e mais inacessíveis. Quando não se dão a tarefa de disseminar o ódio e o desentendimento.
E se estamos perdendo a capacidade de ouvir/interagir (ou a paciência para tal), a saída (pelo menos no caso das redes), está na palma da mão. Os próprios meios digitais oferecem a fórmula.
Lembro um desses aplicativos de mensagens (texto e voz), por sinal o mais utilizado no momento, no qual, por decisão de quem o esteja operando, pode-se, não só apressar a rotação de áudio, como desativar os recursos de notificação de recebimento, tornando-se impossível saber se o indivíduo do outro lado abriu ou não a mensagem que lhe foi enviada. Pode-se também bloquear os contatos considerados “indesejáveis”.
Alguém diria: mas isto é fantástico! Sim, seria, não fosse o recado aí embutido.
Não estaríamos nós saturados do excesso de comunicação e do excesso de meios de comunicação, se é que assim podemos falar?
Anuncia-se para daqui a alguns anos um computador – o computador quântico –, bilhões de vezes mais rápido do que o atual computador digital. O que, inevitavelmente, tornará as formas de comunicação mais abundantes, mais ágeis e mais complexas. (Confesso que tenho dificuldade de imaginar uma máquina bilhões de vezes mais veloz do que as atuais.)
Resta saber quais benefícios isso trará à humanidade em termos de maior integração, união e abertura ao diálogo, o que implicaria, entre outras coisas, a capacidade de ouvir.
Por último: “Ouvir” o “falar” do outro é uma necessidade que se impõe, e para isso foram feitos os tímpanos e os sentidos. E a disposição para tal não é só uma questão de respeito, mas de civilidade.
José Gonçalves do Nascimento
Escritor
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