Crônica - CARNAVAL DE JUAZEIRO: Do rio Nilo para o rio São Francisco

05 de Feb / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

Não sou historiador; sou tradutor e revisor de livros que viaja pelo país e, por isso, acabo guardando pedaços de saber que me servem como mapas improvisados.

Já revisei textos de professores portugueses e brinco que, por vezes, me transformo num “alfacinha (1)” de ocasião — não por vaidade, mas porque a filologia me obriga a escavar sentidos e a reparar detalhes que, de outro modo, se perdem.

É dessa prática de tradução e revisão que nascem as minhas incursões em debates históricos e filosóficos: não para dar aulas, mas para oferecer leituras que façam sentido nas conversas de bar, nas rodas de amigos e nas praças onde o carnaval se anuncia.

Quando olho para a exuberância do carnaval brasileiro, vejo um fio que, por mais remoto que pareça, pode ser traçado até festas muito antigas. No Egito, a inundação do Nilo marcava o reinício do ano — o wepet renpet, “a abertura do ano” — e com ela vinham ritos, procissões e celebrações que misturavam o sagrado e o comunitário. O calendário egípcio, com seus ciclos lunares e dias de reorganização administrativa, era também um calendário de festas: a cheia renovava a terra e, com ela, a vida social. Não pretendo afirmar uma linha direta e ininterrupta entre aquelas margens e as nossas, mas reconheço semelhanças de função e de forma — máscaras, desfiles, rituais de renovação — que circulam no imaginário mediterrâneo e, mais tarde, europeu.

Na península itálica, essas práticas pagãs foram apropriadas, transformadas e integradas ao que viria a ser o carnaval: um tempo-lugar em que o mundanismo e a carne ganham licença antes da Quaresma. A Commedia dell’Arte, com seus personagens fixos e improvisações, deu ao carnaval um repertório simbólico que atravessou séculos. Pierrot, Colombina e Arlequim não são apenas figuras de teatro; tornaram-se arquétipos que, ao migrar para a rua, passaram a operar como mecanismos de inversão social, sátira e reinvenção identitária. Pierrot encarna a melancolia do amante; Colombina, a astúcia e a agência feminina; Arlequim, a esperteza e a mobilidade que subvertem hierarquias. No palco, esses papéis eram fórmulas; no carnaval, viraram máscaras vivas, usadas para dizer o que, em outros tempos, seria proibido.

Quando o entrudo português aportou no Brasil colonial, trouxe consigo a matriz das molhadelas, das brincadeiras com farinha e bexigas, e a licença para a transgressão ritual. Mas aqui, no encontro com povos indígenas e com as culturas africanas trazidas à força, o entrudo se metamorfoseou. Ritmos, máscaras, cosmologias e modos de festa se entrelaçaram: a batucada encontrou a liberação emocional, a sátira ganhou cadência percussiva, e a rua tornou-se palco de uma catarse coletiva. O que era brincadeira de água e farinha transformou-se, ao longo dos séculos, em desfiles, blocos e escolas de samba — formas mais organizadas, talvez, mas que não apagaram a origem popular e subversiva da festa.

Em Juazeiro, como em tantas cidades do Nordeste, o carnaval é essa mistura viva: tradição portuguesa, invenção afro-brasileira, improviso sertanejo e invenção contínua. O Sábado de Zé Pereira, por exemplo, é um sinal de partida — o tambor que chama, a rua que se abre, a licença que se concede. É curioso pensar que um gesto tão simples — bater um tambor, vestir uma máscara, soltar uma fantasia — carrega em si camadas de história que vão do Nilo ao São Francisco, passando por Veneza, Lisboa e os portos atlânticos.

O que me fascina, e o que tento traduzir quando escrevo sobre isso, é a capacidade do carnaval de ser ao mesmo tempo memória e invenção. Ele conserva traços antigos — ritos de passagem, festas de renovação, a ideia de suspensão das normas — e, ao mesmo tempo, reinventa-se a cada ano, incorporando novas músicas, novas cores, novas reivindicações. É por isso que o carnaval brasileiro, e em particular o do Nordeste, é tão potente: porque não se limita a repetir um repertório; ele o recria, o mistura e o devolve à cidade como algo que pertence a todos.

Dizer que o carnaval brasileiro é “o último estágio” de uma festa iniciada no Egito é uma provocação útil: obriga-nos a pensar em continuidade e transformação, em como práticas humanas se deslocam, se adaptam e se re-significam. Mas é também preciso lembrar que cada etapa desse percurso — do Nilo à Itália, da Península ao Atlântico, do Atlântico ao São Francisco — implica perdas e ganhos, violências e resistências. O que celebramos nas avenidas e nas ruas é, em grande parte, fruto de encontros forçados e de trocas voluntárias, de imposições e de invenções.

No fim, o que importa para quem vive o carnaval não é tanto a origem remota das máscaras, mas a experiência presente: o tambor que pulsa, a rua que se enche, a sensação de que, por alguns dias, a cidade inteira respira no mesmo compasso. E se, por trás dessa batida, houver ecos de ritos antigos — que assim seja. O que nos cabe é dançar, lembrar e, quando possível, entender.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.

1Nascido ou habitante de Lisboa, Portugal.

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