Artigo: Um Carnaval sem cinzas. Por Joaquim Leão 

04 de Feb / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

Nascido de, e criado por jornalista, deveria saber que não se escreve na primeira pessoa. 

Mas, eu não sou jornalista e tomei gosto por decepcionar meu pai.  Ele há de entender. 

Só vale a pena escrever se for pessoal. 

Como bom filho de mau comunista, muitas vezes é difícil fugir das ideias românticas e rasas. Então quando passando ali pela antiga TV vi a Adolfo Viana lotada, toda colorida de sorrisos, espumas e glitter, sonhei: 

Me vi menino no Pimentinha jogando espuma pra cima e torcendo pra minha mãe não achar ruim. Vi meu primo mais velho com o abadá do Sei-lá, um biri-night na mão e se escondendo da câmera da TV já que ele estava em Juazeiro pra cuidar de minha Vó ou pelo menos é o que a namorada de Salvador achava. 

E vi minha mãe brincando. 

E vi meu pai de bigode, boné e óculos escuros. 

E Vi eles dois se beijando na avenida cercados de amigos. Todos usavam a mesma camisa. Filhos da Pauta. 

Vi tudo isso e pensei: JUAZEIRO RENASCEU! 

Que ideia ótima para um artigo. Juazeiro Fênix. Renascida na quarta-feira de cinzas. 

No domingo, como é de costume aos Domingos, a realidade fez questão de jogar fora minhas ideias rasas com uma cena pitoresca e duas constatações óbvias.  

A cena eu presenciei passando ali perto do antigo ITAÚ, achei caipirinha por DOIS REAIS e Vi um Neto natimorto brincando nos ombros de um vaqueiro que levava entre as pernas um triste cabo de vassoura com cara de cavalo. Junto deles, uma senhora muito parecida com a Priscila da TV Colosso estava tentando comprar uma pulseira de camarote pro filho. 

Fiquei ali alguns segundos perplexo com a cena. Um homem feito brincando de cavalinho, um bebê morto falando que se identificava com a cor bege e a Priscilla querendo comprar OPENBAR pra uma criança. 

Meu Deus, ninguém tá vendo isso? 

Não. 

Ninguém estava. 

Kannario tava passando. 

As pessoas balançavam juntas. Sem deixar ninguém cair. 

E quando vinha a polícia a gente se abraçava e abria caminho. E quando esquentava, quem tivesse leque abanava todo mundo. E quando o moço perdeu o chinelo todo mundo parou pra procurar.  Tinha criança, vaqueiro, rapadura, Priscila, banqueiro, doido, metaleiro, crente, cachorro caramelo e quente, Tudo ali, até a caipirinha de 2 reais é Luiz Galvão e Chico Science. "Eu me rebolo pra continuar menino e o orgulho, a arrogância, a glória são demônios que destroem o poder bravio da humanidade". 

Daí as duas constatações:

1- Juazeiro não cabe no raso. 

Juazeiro é capaz de eleger A Mãe sem molho de um filho sem carisma só pra mostrar que não aceita ser desrespeitada. Só pra deixar claro que não tem dono. Juazeiro é capaz de encontrar revolução comunista em empresa de agrotóxico pra fugir de polaridades burras.  Juazeiro não queima. Apaga o fogo e corrige rumo. Juazeiro Não morre. Logo não renasce. Não há cinzas. 

2. Depois de domingo é segunda. 

Não sobrou nem a quarta feira da minha metáfora e me dei por satisfeito assim. 

Achei mais bonito. No lugar da Quarta-feira de Cinzas. Segunda-feira de água.

Joaquim Leão

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