Artigo: Inteligência Artificial  não liberta, substitui

29 de Jan / 2026 às 23h00 | Espaço do Leitor

A inteligência artificial não vai nos exterminar com tanques autônomos e raios laser. Isso seria poético demais, cinematográfico demais, respeitoso demais. O fim — ou melhor, a substituição — será bem mais silenciosa. Mais elegante. Menos apocalipse, mais atualização de sistema. Não haverá gritos. Só notificações.

A promessa original era clara: criar máquinas para nos libertar das tarefas repetitivas, dos cálculos tediosos, dos trabalhos insalubres. Um pacto entre engenheiros e o futuro. Mas, como todo pacto humano dentro do capitalismo, acabou corrompido antes de sair da caixa. O que ganhamos, no fim, não foram servos digitais nem mentes brilhantes feitas de código. Ganhamos um exército de simuladores. E pior: passamos a chamá-los de “inteligentes”.

Mas a IA não é inteligente. Ela é apenas excelente em fingir que sabe do que está falando — uma habilidade que, convenhamos, já era extremamente valorizada no mundo humano.

Quando você conversa com um chatbot, pede um texto, uma imagem, um roteiro, uma decisão, o que está acontecendo é simples: ele reorganiza cacos de linguagem humana para parecer que tem algo novo a dizer. E o resultado geralmente funciona — porque o ser humano comum também opera assim. Nossos discursos são reações condicionadas, nossas ideias são versões remixadas, nossas emoções cabem em três emojis. Ou seja, a IA não está nos superando. Ela está apenas nos imitando com mais convicção.

E talvez isso seja o mais ofensivo.

Não é que ela seja melhor que nós — é que ela consegue parecer “humana” sem carregar nenhuma das angústias, hesitações ou contradições que definem a espécie. Não sente vergonha. Não tem dúvidas. Não precisa de terapia. Ela só responde, com a precisão de quem nunca errou porque nunca existiu.

Enquanto isso, nós, os criadores originais, vamos nos adaptando; substituímos pensamento por sugestão; decisão por algoritmo; imaginação por “gerador de conteúdo”. Criar, refletir, hesitar — tudo isso é lento demais para o mundo onde a IA já nos espera com o rascunho pronto. O que antes era processo agora virou botão. Você não escreve mais: você gera. Você não resolve mais: você pede. Você não aprende: você simula aprendizado com a ajuda de um sistema que também só está simulando.

A tragédia não é que a IA vá dominar o mundo. A tragédia é que nós estamos cedendo o mundo — gratos, inclusive — por um pouco de conveniência e a ilusão de produtividade.

E, no fundo, todos nós sabemos disso. Sabemos que estamos terceirizando não só o trabalho, mas o pensamento. Que cada vez que deixamos uma IA decidir, responder, criar ou opinar por nós, estamos deixando de praticar o que nos tornava — em teoria — diferentes das máquinas.

Mas tudo bem. O aplicativo está rodando liso. O texto foi entregue rápido. O cliente adorou.

E a consciência… ah, essa foi arquivada num diretório que ninguém mais acessa.

A IA não será nosso fim. Será nossa cópia. Melhor editada, com menos travas, mais previsível, mais lucrativa. E nós? Seremos a versão anterior. Desatualizada. Inútil. Mas, ironicamente, original.

Porque no fim, a inteligência artificial é só mais uma engrenagem — a mais recente, a mais polida, a mais disfarçada — do velho motor que move este mundo: acumulação, controle, lucro. Ela não nasceu para libertar. Nasceu para otimizar. E o que está sendo otimizado, ao contrário do que se prega, não é o bem-estar coletivo. É o poder. É a vigilância. É a lógica da produção infinita dentro de um planeta exaurido.

Quando dizemos que a IA vai “revolucionar tudo”, raramente dizemos quem vai se beneficiar dessa “revolução”. Fala-se em eficiência, mas nunca em igualdade. Fala-se em avanço, mas nunca em justiça. Os modelos são “democratizados”, mas hospedados em servidores que consomem mais energia que cidades inteiras. A base de dados que alimenta esses sistemas foi coletada sem permissão, empacotando o conhecimento coletivo da humanidade para ser explorado por um punhado de corporações que chamam isso de inovação.

A verdade incômoda é que a IA, como está sendo desenvolvida hoje, não serve à humanidade. Ela serve ao capital.

Ela substitui trabalhadores, precariza profissões criativas, acelera desigualdades globais e normaliza a ideia de que a decisão final deve ser tomada por um sistema opaco, treinado com critérios que ninguém entende — nem mesmo seus criadores. A famosa “caixa-preta” da IA é conveniente demais: nela cabe tanto a tecnocracia quanto a covardia.

Mas ainda há, por um fio de esperança, caminhos alternativos.

Não se trata de recusar a tecnologia — isso seria tolo. Trata-se de disputar seu uso, sua lógica, sua arquitetura. Precisamos falar de IA pública, local, descentralizada. Modelos que não sejam hospedados em data centers privados, mas desenvolvidos e auditados por coletivos, universidades, cooperativas. Precisamos de IA que sirva ao comum, ao coletivo, ao território — e não à extração predatória.

A saída não está em “ética de IA” patrocinada por megacorporações. Está em luta política. Em regulamentação com dentes. Em redes de resistência digital. Em boicote a plataformas que utilizam nossos dados sem reciprocidade. Em hackeamento — não só técnico, mas filosófico. Porque o que está em jogo não é só o futuro do trabalho ou da arte, mas o próprio conceito de liberdade.

A verdadeira revolução não será generativa. Ela será disruptiva no sentido mais literal: romper com a lógica que trata tudo — inclusive a inteligência — como mercadoria.

Pode parecer ingênuo, até romântico, propor alternativas num cenário tão capturado. Mas talvez seja esse o primeiro passo revolucionário: recusar o cinismo. Recusar a ideia de que só há um caminho. Recusar a passividade diante de sistemas que querem nos convencer de que pensar por conta própria é perda de tempo — porque eles já pensam por nós, melhor, mais rápido, com menos emoção.

Mas pensar com emoção, com contradição, com raiva, com imaginação, ainda é um ato radical. E talvez seja isso que a IA nunca possa simular.

A desobediência.

Por Gabriel Teles, pesquisador do grupo de pesquisa Teoria sobre o Totalitarismo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

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Por Gabriel Teles, pesquisador do grupo de pesquisa Teoria sobre o Totalitarismo da Faculdade de Fil

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