
A Bahia é um estado de dimensões continentais, marcado por uma diversidade cultural, econômica e social que não pode, nem deve, ser tratada de forma homogênea. Ainda assim, nos últimos anos, temos assistido a um movimento preocupante de centralização do jornalismo regional, que enfraquece a representação do interior e compromete o direito da população à informação de proximidade. Esse retrocesso ficou evidente a partir de 2019 e se aprofundou com as mudanças recentes implementadas pela Rede Bahia.
Em maio daquele ano, a Rede Bahia decidiu encerrar as edições locais de telejornais nas praças da TV São Francisco, em Juazeiro, e da TV Oeste, em Barreiras. Programas tradicionais como o Bahia Meio Dia e o Jornal da Manhã deixaram de ser produzidos localmente e passaram a ser gerados a partir de Salvador, com poucas e insuficientes inserções regionais. Foi ali que se iniciou um processo de esvaziamento do jornalismo local no Norte e no Oeste baiano.
Em 2022, houve uma breve sinalização de correção de rota, quando a TV São Francisco retomou a apresentação regional do Bahia Meio Dia diretamente de Juazeiro. A iniciativa foi bem recebida pela população, pois devolveu, ainda que parcialmente, identidade, proximidade e reconhecimento às pautas locais. Infelizmente, essa experiência foi interrompida com a reformulação anunciada em dezembro de 2025, que voltou a unificar produções e a retirar das regiões o protagonismo sobre suas próprias narrativas.
O que mais causa estranhamento é a tentativa de unificar o jornalismo local de regiões que são radicalmente distintas. Juazeiro, no Norte da Bahia, está a mais de mil quilômetros de Barreiras, no Oeste do estado. Não se trata apenas de distância geográfica, mas de realidades completamente diferentes. São culturas, economias, desafios e vocações que não se confundem e que não cabem em um mesmo noticiário regional padronizado.
Juazeiro está inserida no contexto do Vale do São Francisco, com forte presença da fruticultura irrigada, comércio ativo, crescimento industrial e protagonismo cada vez maior nas novas matrizes de energia renovável, como a solar e a eólica, que avançam em ritmo acelerado. É uma cidade com relevância política, econômica e social, que deveria ocupar espaço diário no noticiário regional. No entanto, esse espaço vem sendo sistematicamente reduzido.
Outro aspecto grave desse processo é o impacto humano e profissional. A centralização veio acompanhada da demissão de jornalistas locais, profissionais que conheciam o território, as pessoas e os problemas da região. Repórteres, produtores e apresentadores que construíram, ao longo de anos, uma relação de confiança com a comunidade foram desligados, empobrecendo o jornalismo e fragilizando a qualidade da informação oferecida à população.
O resultado já é perceptível. No Norte da Bahia, muitos telespectadores passaram a buscar informação na TV Grande Rio, emissora sediada em Petrolina, em Pernambuco, que mantém desde sua origem um modelo consistente de jornalismo regional. Diferentemente do que ocorre atualmente nas emissoras baianas, a TV Grande Rio não se limita a recortes administrativos ou fronteiras estaduais, mas retrata a realidade do Vale do São Francisco como um todo, fortalecendo a identidade regional e criando no telespectador local o sentimento de pertencimento e reconhecimento do seu cotidiano.
Quem perde com isso não é apenas Juazeiro, mas todo o interior baiano. Perde-se visibilidade, perde-se identidade, perde-se a oportunidade de mostrar a força do comércio, do agronegócio, da indústria e das energias renováveis que movimentam a economia regional. Perde-se, sobretudo, o jornalismo de proximidade, aquele que dá voz às pessoas e aos territórios.
A discussão vai muito além de grade de programação ou de decisões administrativas. Trata-se do papel social da comunicação e do direito da população do interior de se ver representada de forma justa, cotidiana e qualificada. A Bahia é plural, diversa e extensa demais para ser contada apenas a partir da capital.
Rever essa estratégia não é apenas uma questão editorial. É uma necessidade democrática.
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