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Há momentos em nossa vida, que paramos um pouco para refletir o que somos hoje e o que esperávamos de haver sido há anos, quando viver e conviver pouco tinha de consequências em nossas vidas.
Sabemos que existem paradoxos que nunca são resolvidos, apenas são vividos, a exemplo daquele tipo de amor que se aproxima e ao mesmo tempo se distancia, daquela esperança que tanto ilumina quanto fere, daquele tempo que nos dá e tudo nos tira. No fundo são contradições que não se desfazem com lógica, porque elas pertencem ao tecido da existência.
Assim tem sido há milênios e, dessa maneira, será por mais um bom tempo. O paradoxo existencial, citado no parágrafo inaugural, é como ponte suspensa sobre o vazio: não se atravessa para chegar ao outro lado, mas tão somente para sentir a suave brisa ou vento violento soprando no meio do caminho, lembrando-nos que nem tudo pode ser convenientemente explicado, revertido ou vencido: há dores que insistem em voltar no tempo.
A gente sofre porque insiste em cometer o mesmo erro, o mesmo tropeço com o mesmo pé, na mesma pedra; porque não aceita o fato de que há portas que se fecharam de vez. Sofre de teimoso, de querer reverter o irreversível, como se o tempo pudesse se curvar a nossos desejos. É uma espécie de orgulho do coração: ele não se conforma, nem se rende, e continua batendo contra muros que não cedem.
Mas talvez essa teimosia seja também o que nos mantém vivos. É ela que nos faz tentar mais uma vez, mesmo sabendo que o desfecho será fatalmente o mesmo. É ela que nos dá coragem de amar, ainda que o amor seja impossível. Sofremos, sim, mas é nesse sofrimento que se revela a grandeza humana: a capacidade de insistir, mesmo diante do que não tem volta.
O homem sofre porque nunca se deu ao luxo de abrir um compêndio sobre História e dele tirar lições para pavimentar a sua caminhada. Nunca leram ou ouviram histórias que ao nascer já estão condenadas ao pior desfecho. A história permeia exemplos envolvendo Helena e Páris, Dido e Eneias, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda – todos eles nos lembram que o amor, por vezes, é uma chama que arde mais do que ilumina. São encontros que carregam em si a beleza da intensidade e o peso da impossibilidade.
O coração humano insiste em acreditar que pode dobrar o destino, que pode reverter a trama da vida. Mas a vida, tecida em fios invisíveis, não se deixa desfazer. O que foi vivido não retorna, o que foi perdido não se recompõe. Há apenas o eco das escolhas, o silêncio dos desencontros e a memória dos instantes que, por breves, se tornam eternos.
Esses amores quase impossíveis nos ensinam que não é a duração que dá sentido ao encontro, mas a intensidade. Romeu e Julieta viveram poucas horas de plenitude, mas até hoje são lembrados como se tivessem atravessado séculos juntos. Tristão e Isolda, separados por convenções e guerras, ainda nos falam da força de um vínculo que desafia o tempo.
No fundo, talvez o amor trágico seja o mais humano de todos. Ele nos revela que amar não é apenas entrega, mas também aceitação do limite. É compreender que o coração, por mais que insista, nem sempre vence o mundo. E, ainda assim, vale a pena. Porque mesmo quando não há futuro, há presente; mesmo quando não há permanência, há instante – e o instante, por breve que seja, pode conter uma eternidade.
A vida não é reversível. O tempo não se dobra, não se refaz, não concede segundas chances ao que já foi vivido. Mas o amor, mesmo quando impossível, deixa marcas que resistem ao esquecimento. São cicatrizes luminosas, gravadas na memória e na pele da alma, que nos lembram que houve intensidade, que houve encontro, que houve sentido.
É nesse paradoxo – na beleza do que não pôde ser – que encontramos a poesia que nos sustenta. O amor trágico nos ensina que a grandeza da experiência não está na posse, mas na travessia; não está na permanência, mas na intensidade. Ele nos mostra que há uma dignidade em amar sem garantias, em se lançar ao abismo sabendo que não haverá chão.
E talvez seja justamente por isso que essas histórias de amor e entrega tenham conseguido atravessar séculos: porque falam de nós, da nossa teimosia em desejar o impossível, da nossa coragem para enfrentar o inevitável. Amar, afinal, é sempre um risco. E quando o risco se cumpre em tragédia, resta-nos a consciência de que, por um instante, tocamos o inatingível.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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