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Era dezembro, e a cidade de João Pessoa, na pequenina e brava Paraíba, parecia suspensa entre o calor sertanejo e a promessa de mais um Natal sufocante do ponto de vista político e climatológico.
Era 1968, o ano inacabado, prolongado pelo AI-5 em 13 de dezembro de 1968, quando se inaugurava a fase mais dura do Golpe de ’64 e os direitos civis foram suspensos, fechou-se o Congresso Nacional e se ampliou a censura.
Pretensamente alheio a tudo, um garoto de 18 anos, curioso e obstinado, passava as tardes na Biblioteca Pública Municipal de João Pessoa mergulhado na sonoridade dos versos do bardo inglês, William Shakespeare, com denodo e atenção, principalmente os sonetos de amor e amizade, como quem busca no passado o alento para viver o presente.
Inspirado por tão agradável companhia, ali no silêncio e sombra, decidiu criar algo para consumo próprio, para esquecer o burburinho causado pelo eterno conflito político partidário. Decidiu, então, criar algo próprio que pudesse ligar o passado e o presente: uma poesia natalina. Mas não seria uma poesia natalina qualquer.
Escolheu o idioma de Shakespeare, aquele conhecido como Inglês Inicial Moderno (Early Modern English), e o moldou um acróstico com seu nome: GETULIO. Cada letra tornava-se um portal para imagens de esperança, fé e amizade, como se o Natal pudesse ser traduzido em ecos do século XVII.
Com paciência quase ritual, escreveu o poema em letras góticas sobre um papel encardecido pelo tempo, como se fosse um manuscrito resgatado de 1610. No rodapé, deixou apenas a enigmática assinatura: “Uk.Au.” (autor desconhecido, em português).
Munido de sua criação, levou o texto ao colegiado de inglês da UFPB. Os professores, intrigados, examinaram o soneto, reconheceram o tom shakespeariano, a cadência das palavras, a aura de antiguidade. Mas não conseguiam identificar o autor. Concluíram que se tratava de um documento apócrifo, talvez uma peça perdida, e despacharam o garoto com indiferença.
Dias depois, ao revisitar o manuscrito, perceberam o detalhe que lhes escapara: o soneto era na realidade um acróstico e revelava, letra por letra, o nome do próprio jovem que lhes entregara o poema: GETULIO estava ali, escondido à vista de todos.
Atônitos, compreenderam que não se tratava de um achado histórico, mas de uma ousadia contemporânea. O garoto não apenas imitara Shakespeare — ele havia dialogado com o século XVII, recriado sua atmosfera e, ao mesmo tempo, inscrito sua própria identidade no papel:
Giving all the Xmas. blessin'
Entire as the own Xmas. tree
Thunder as the voice of thunderin'
Undoin' the sorcery against thee
Lightning thy road with gilded wadding
I'm just now - praying for -
O'er 'n o'er - thou havest a Xmas. more.
E assim, no clima quente e calor político, um adolescente pequeno e frágil rugiu ao mundo que a literatura não é apenas memória: é também invenção, disfarce e revelação. Esse poema, escrito em letras góticas num papel encardecido e assinado como Uk.Au., realmente poderia enganar um colegiado acadêmico, ao se parecer uma peça perdida do início do século XVII.
Para guardar a motivação, segue uma versão (tradução aproximada) em português:
Guardando todas as bênçãos do Natal,
Entregues como a própria árvore a brilhar,
Troando forte, qual voz de trovão,
Ungindo os que tentam te alcançar.
Luzindo teu caminho com dourado clarão,
Inclino-me agora — em oração —
Outra vez, e sempre, que tenhas Natal em profusão.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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