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Por conta da abundância de recursos hídricos, a Chapada do Araripe, localizada na divisa entre Ceará, Pernambuco e Piauí, é chamada de “caixa d’água do Sertão”.
A região de planície é composta por 38 municípios e chega a uma altitude de até mil metros, com nascentes importantes e uma bacia sedimentar com águas subterrâneas.
"Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta...Era flora, fauna, frutos e flores...Veio caipora de fora para a mata definhar e trouxe dragão de ferro pra comer muita madeira e trouxe em estilo gigante pra acabar com a capoeira...Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar Pra o dragão cortar madeira e toda mata derrubar...Se a floresta, meu amigo, tivesse pé pra andar Eu garanto, meu amigo, que o perigo não tinha ficado lá...O que se corta em segundos gasta tempo pra vingar E o fruto que dá no cacho pra gente se alimentar?
Os versos cantados pelo saudoso Vital Farias em defesa da Floresta Amazônia é o retrato atual da Chapada do Araripe que está sendo devastada a cada dia. A REDEGN percorreu um trecho da Chapada do Araripe trecho entre o Crato Ceará e Exu Perrnambuco. Se o cantador Luiz Gonzaga cantou Xote Ecológico questionando a devastação e a falta de respeito com o meio ambiente a música hoje se faz atual.
Ouvidos pela REDEGN trabalhadores dizem sem citar nome "que uma empresa comprou muitas terras e vai plantar soja, mandioca tudo com muita tecnologia".
DESMANTAMENTO: Segundo o Relatório Anual de Desmatamento (RAD 2024) do MapBiomas a pesar da redução nacional, a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe, no Ceará, não acompanhou a tendência: foram 5.965 hectares desmatados, praticamente o mesmo número do ano anterior (5.900 hectares). A unidade ocupa o 3º lugar entre as áreas de conservação mais desmatadas do país.
"Quando a gente analisa os dados dos últimos cinco anos, a gente mal tá conseguindo frear esse processo de degradação desse meio ambiente", afirma o chefe do Núcleo de Gestão Integrada (NGI) ICMBio Araripe, Carlos Augusto Pinheiro, durante entrevista para o G1 Ceará.
A APA Araripe é uma unidade de conservação federal de uso sustentável, onde são permitidas propriedades privadas e atividades agrícolas e industriais. Ambientalistas alertam para os riscos à biodiversidade e aos recursos hídricos da região do Cariri.
"A chapada tem um lado mais alto voltado aqui para Ceará. Um grande paredão que pega os ventos do oceano carregados de umidade. Isso faz com que chova mais nessa área. No meio do Sertão nós temos uma ilha de umidade, um brejo de altitude fenomenal e de grande diversidade ambiental e climática. Isso garante chuva e conforto térmico para outras regiões", explica o ambientalista Basílio Silva Neto.
QUEIMADAS: Além do desmatamento, as queimadas são outro desafio. A cada ano, os incêndios têm preocupado mais. De acordo com o Boletim do Fogo, do Corpo de Bombeiros Militares do Ceará, o Crato registrou 68 ocorrências de incêndio em vegetação em novembro de 2025, ficando em 3º lugar no estado.
Comparados com dados de todo o ano de 2024, os números já foram superados em Juazeiro do Norte e Crato. Em 2025, foram registrados até novembro 843 incêndios em vegetação. Em 2024, foram 776 ocorrências.
"Temos contextos como a umidade baixa do ar, as ondas de calor que potencializam essa umidade do ar, e associada a isso a prática de limpar a terra através do fogo. E além disso, o descuido das pessoas, a falta de campanhas educativas e que as pessoas saibam conduzir os seus terrenos que estão sem uso. Além da contaminação através da fumaça, tem o aumento da temperatura e todo aquele ambiente passa a ter de 2 a 3 graus acima da média. Cabe ao Ministério Público fazer uma fiscalização dos incêndios, os gestores acompanhar a questão da educação ambiental nessa época do ano para que se evite tais práticas", explica o ambientalista.
MINISTÉRIO PÚBLLICO: Para combater os desmatamentos e incêndios na APA Araripe, o ICMBio tem contado com apoio de diferentes órgãos. Entre eles, a Polícia Federal, que em outubro realizou a Operação Woodtrack no sul do Ceará. A ação ocorreu em Crato, Barbalha, Brejo Santo e Araripe, com foco na APA da Chapada do Araripe. Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em locais com indícios de desmatamento ilegal, além de serrarias e madeireiras já investigadas por irregularidades ambientais. Houve autuações, apreensão de material florestal e embargo de atividades.
"A gente tem feito um trabalho em coordenação com as equipes do Ibama e ICMBio para combater de forma tanto preventiva quanto repressiva esses crimes ambientais em unidades de conservação federal. Aqui no Ceará foram identificados alguns pontos de alerta de desmatamento. A fiscalização é essencial para identificar e quantificar o prejuízo que foi ocasionado", explica Marcelo Costa, delegado da Polícia Federal.
O Ministério Público também atua na região com o projeto APA Regular, que busca frear o desmatamento para fins agrícolas e reforçar a importância da unidade de conservação no combate às mudanças climáticas.
O projeto idealizado pela Promotoria de Justiça do Crato mapeou os conselhos municipais de meio ambiente dos 15 municípios que compõem a APA Araripe no Ceará. Entre eles, Missão Velha, Penaforte e Santana do Cariri, que possuem conselhos previstos em lei, mas que estão inativos.
"A gente percebeu que existia uma ineficácia fiscalizatória dentro do território, porque apesar da atuação do ICMBio e de outros órgãos de fiscalização ambiental, nós não temos aparato humano suficiente para alcançar todo o território. Na promotoria do Crato existe uma aproximação com esses órgãos, mas nos municípios mais distantes percebemos a necessidade de tentar padronizar a fiscalização por parte do Ministério Público. O projeto tem esse objetivo principal de fazer essa fiscalização, otimizando e colocando um setor como protagonista. É através do Conselho Municipal que tem participação popular que a gente aproxima quem vive, quem sofre as consequências da invasão do território", explica o promotor de Justiça Thiago Marques.
Os municípios que compõem a APA Araripe no Ceará possuem mais de 493 mil habitantes. Com as audiências públicas realizadas para integrar os órgãos e também para conscientizar a população, os resultados têm aparecido. Como a prisão de um suspeito de atear fogo nas proximidades da Floresta Nacional do Araripe.
"Nós fizemos uma grande audiência pública sobre as queimadas que se intensificam nesse segundo semestre. Depois dessa audiência tivemos um incêndio que um popular flagrou através de câmeras de monitoramento. Foi ele quem avisou os órgãos competentes. Conseguimos efetuar a prisão desse indivíduo que cometeu o crime nas proximidades da Floresta Nacional do Araripe. O que eu percebo é que onde a gente conseguiu que o Conselho Municipal do meio ambiente voltasse a funcionar, a gente teve uma melhora na comunicação desses órgãos que atuam na fiscalização", afirma o promotor de Justiça.
"A gente discute todas essas problemáticas e busca as soluções. Cada um consegue desenvolver seu papel e o Ministério Público aponta as necessidades, melhorias e cobra aos órgãos que desenvolvam melhor o seu papel neste cenário", afirma o chefe do Núcleo de Gestão Integrada (NGI) ICMBio Araripe, Carlos Augusto Pinheiro.
Outro ponto crítico é a ausência da aprovação de um plano de manejo para a APA. Segundo o ambientalista Basílio Silva Neto, “sem esse plano, os produtores não têm diretrizes claras para atuar de forma sustentável”.
"Com o plano de manejo, o pequeno, médio e grande proprietário vai ter condição e conhecimento para desenvolver sua atividade produtiva de forma correta, garantindo o desenvolvimento sustentável. A gente necessita da aprovação desse plano de manejo para que a gente consiga gerir toda essa área. É um pacto sobre a água, sobre a cobertura vegetal, o solo, são normativas que devem ser seguidas, são as licenças ambientais que os produtores devem ter para garantir a conservação da APA. O uso racional da área de proteção, garantir que as próximas gerações usem esse lindo patrimônio que nós temos que é a chapada do Araripe", finaliza o ambientalista Basílio Silva Neto.
ICMBIO-Em nota, o ICMBio informou que o plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) Chapada do Araripe encontra-se em fase de consolidação final do documento. E que a elaboração teve ampla participação de representantes de instituições públicas, sociedade civil e comunidades locais, permitindo ampla discussão sobre os usos do território, a conservação dos recursos naturais e o zoneamento da unidade.
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