CRÔNICA NATALINA: O SILÊNCIO DA MANJEDOURA

02 de Dec / 2025 às 23h00 | Espaço do Leitor

Chegou dezembro e com ele o solstício de verão no nosso hemisfério sul, fim de um ciclo de 365 dias e algumas horas, o prenúncio de um novo tempo, de um novo ano, de um chamado de promessas que serão esquecidas tão logo surjam as novas quatro estações.

As ruas brilham, o comércio fervilha e a economia aquece. Lojas abarrotadas, vitrines que piscam como estrelas artificiais, sacolas que se multiplicam nas mãos apressadas.

O Natal, para muitos, tornou-se um desfile de consumo: presentes caros, mesas fartas, disputas por quem oferece mais. Mas, em meio ao barulho das compras, há um silêncio esquecido — o da manjedoura.  

Esquecemos todos que naquela noite primeira, não havia luxo. O aniversariante nasceu entre palha e animais, envolto apenas em panos simples. Não recebeu ouro, nem perfumes raros, nem banquetes. Recebeu olhares, recebeu cuidado, recebeu amor. E foi nesse despojamento que se revelou o extraordinário: a vida que chega humilde, mas transforma o mundo.  

O princípio minimalista, ao qual me apeguei após o surto epidêmico da COVID-19, encerra a sua mais bela tradução. O Natal não pede excesso, pede essência. Natal não é sobre o que se compra, mas sobre o que se compartilha. Não é sobre o brilho das lojas, mas sobre a luz que nasce dentro de cada coração disposto a amar.

O Natal não pede sacolas cheias, pede mãos abertas. Não pede vitrines iluminadas, pede corações que se deixem iluminar. O verdadeiro presente não está nas caixas embrulhadas, mas na presença que se oferece, no abraço que se dá, na fé que se renova.  

Nessa perspectiva, é de se observar que o minimalismo, na época natalina, revela-se como espécie de poesia cotidiana. São coisas simples do dia-a-dia, a exemplo de uma xícara de café que ganha protagonismo porque não disputa atenção com dezenas de bibelôs dispostos a seu lado, ou de um livro aberto sobre a mesa que se torna companhia mais que suficiente, ou até mesmo o sol que entra pela janela e domina o chão sem precisar de cortinas suntuosas.

Humanizar o Natal é devolver-lhe sua poesia original: celebrar o aniversariante, não o consumo. É lembrar que o extraordinário não está nos gastos, mas na simplicidade de um gesto sincero. É perceber que, ao rejeitar os excessos, encontramos espaço para o que realmente importa: a esperança, a paz, o amor que nasceu naquela noite silenciosa.  Enfim, viver apenas com o essencial é sobretudo um ato de coragem, para dizer não ao ruído do consumo, ao acúmulo que promete felicidade mas entrega ansiedade.

E talvez seja esse o convite que o Natal nos faz todos os anos: renunciar ao supérfluo e reencontrar o essencial. Porque o aniversariante não pediu presentes caros — pediu apenas que não fosse esquecido.

Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.

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