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Arquitetonicamente, o Paço Municipal de Juazeiro é um edifício histórico de estilo eclético com traços coloniais tardios, erguido em 1894. Sua fachada simétrica, sacadas discretas e ornamentação sóbria revelam a volumetria típica dos casarões públicos do século XIX. Tombado como patrimônio, o Paço guarda em suas paredes a memória de uma cidade que cresceu às margens do Velho Chico.
Confesso que o que me move é o amor à primeira vista por esse Paço. Imagino sua beleza original, antes que a modernidade apagasse parte das formas que nos ligavam a um passado pujante. Um passado que, de repente, foi interrompido por decretos e reformas, mas que hoje começa a reencontrar sua voz e sua razão de ser.
Nesse cenário, transporto-me ao conceito francês de terroir — palavra sem tradução direta, mas que significa o conjunto de fatores naturais e humanos que moldam o vinho: solo, clima, topografia e práticas culturais. O petit terroir , por sua vez, é a pequena parcela de terra que concentra identidade própria, capaz de gerar vinhos singulares.
Esse espírito de identidade e singularidade foi exatamente o que se respirou no evento realizado pelo SEBRAE em Juazeiro. O petit terroir do São Francisco, entre 19 e 22 de novembro de 2025, trouxe à tona a força dos produtos locais, deu visibilidade aos pequenos produtores e abriu novas oportunidades de negócios, turismo e cultura.
Mais do que uma feira, o petit terroir foi uma vitrine para pequenos produtores, abrindo novas oportunidade de negócios e turismo. A brilhante iniciativa reforça o papel ativo da cidade como referência nacional em fruticultura irrigada.
Juazeiro, afinal, é abundante em talentos e riquezas: na culinária que traduz sabores tropicais, no esporte que revela craques como Daniel Alves, e na música que ecoa desde João Gilberto, criador da Bossa Nova, até Mauriçola, que hoje defende com paixão quixotesca esse legado. É uma cidade que produz de sobra cultura e identidade, e que sabe transformar tradição em inovação.
O petit terroir , assim como Juazeiro, mostra que há potência latente. A cidade teve um passado brilhante e pode ter um futuro ainda melhor, desde que reconheça seu valor e conte com líderes capazes de unir trabalho, arte, suor e poesia. O rio São Francisco, ora manso, ora caudaloso, não é apenas cenário de cartões-postais: é fonte de vida e inspiração. De suas margens brotam frutas que alimentam o mundo, músicas que embalam gerações e futebolistas que brilham nos maiores estádios.
Juazeiro revela, portanto, que sua verdadeira riqueza está na capacidade de transformar potencial em realidade. É uma cidade que canta, que joga e que produz — e que segue firme como orgulho da região sanfranciscana.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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