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O ex promotor de Justiça, jurista nascido em Exu, Pernambuco Givaldo Peixoto vai completar 100 anos de idade. Recentemente ele lançou o livro “Do Processo Inflacionário como Subsídio Estatal para a Concentração de Renda”, sétimo livro de sua carreira como escritor.
Fundador de escolas e faculdades, ele dedicou a vida a discutir os problemas do país e chegou, em plena Ditadura Militar, a elaborar a própria proposta de Constituição Federal, no ano de 1978.
Nascido no dia 3 de dezembro de 1925, na Zona Rural de Exu, no Sertão do Araripe pernambucano, foi amigo de Luiz Gonzaga. Ele conta que "a vida fez com que suas histórias se cruzassem".
"No sertão a regra geral é que o jovem, ainda adolescente procure fugir das limitações do meio local. Luiz Gonzaga partiu nos ano 30 e eu fiz isso nos anos 40", diz Givaldo Peixoto, relembrando que o primeiro encontro dos dois aconteceu na cidade do Crato Ceará na casa do sanfoneiro e músico Manoelito Parente de Alencar.
"Na época, esse meu tio Manoelito já era famoso. Luiz Gonzaga todos os conhecem como artista, melhor do que eu. Conheco, porém, o Luiz Gonzaga que muitos ignoram. Encontrei Luiz Gonzaga no meu campo de estudos, no campo da história, da Geografia Humana. O Brasil de Luiz Gonga é o sertão, o espaço dimensionado por seis ou mais de milhões de quilômetros de Geografia indomada, sob o sol poente de nosso Brasil, relembra Givaldo Peixoto.
Em 1976 Givaldo Peixoto escreveu: "Luiz Gonzaga, para mim, não é apenas um artista, o amigo pessoal, o tio Lula de meus filhos, o conterrâneo ilustre e amado do Brasil. Luiz Gonzaga é uma consciência em luta. Com o dom da Comunicação, Luiz Gonzaga canta a frustração do pátrio Sertão. Canta a nostalgia do sertanejo marginalizado nas modernas Canaas de pedra e sal"
A jornalista Marilia Parente/Diário de Pernambuco revela que Givaldo Peixoto voltou a morar em Exu anos 1990, onde circula até hoje dirigindo o próprio carro, com carteira de habilitação renovada até os 102 anos de idade. Na terra natal, é reconhecido por sua contribuição para a formação educacional da população, especialmente através da fundação das primeiras escolas locais de Ensino Médio, o Grupo Escolar Padre Medeiros e o Colégio Municipal Bárbara de Alencar, batizado em homenagem à exuense que se tornou a primeira mulher presa política do Brasil, em razão de sua participação na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador, de 1824.
“A gente conseguiu colocar as escolas em prédios públicos, através de acordos com os gestores. Só que tinha um problema. Eles funcionavam durante o dia e as aulas teriam que acontecer à noite, em uma época em que Exu ainda nem tinha energia elétrica”, lembra Givaldo.
A cidade inteira abraçou o projeto. “Foi uma coisa de construção coletiva. Um tio e um tio-avô meus foram cortar madeira para fazer os móveis escolares. Não era algo com recurso público”, ressalta o advogado Dario Peixoto, filho de Givaldo.
Durante sete anos, professores e alunos frequentavam as aulas portando candeeiros. “A primeira turma, conhecida como turma do candeeiro, vai estar presente no lançamento do livro que também iremos realizar em dezembro, em Exu”, orgulha-se Dario.
No ano passado, Givaldo foi homenageado por uma turma de alunos do Colégio Bárbara de Alencar, no dia 7 de setembro, que marca a data de emancipação política de Exu. “Os estudantes receberam o apelido de ‘Givaldinhos’, porque foram à escola com as tradicionais camisas de botão de papai, de quatro bolsos. Foi muito engraçado”, lembra Dario.
Atualmente, Givaldo trabalha em seis novos livros que pretende lançar. A contragosto, precisou acatar às recomendações médicas para diminuição de sua carga horária de trabalho. “Agora só posso ir até às onze da noite”, comenta.
Licenciado em história e geografia, Givaldo ajudou a fundar faculdades na cidade de Crato, Ceará, e em Petrolina, no Sertão do São Francisco. Ele também discursou na inauguração de Brasília, no Distrito Federal, e dedicou diversos livros ao debate sobre a moeda nacional.
“Não se esqueça de dizer isso na matéria. Moeda não é meio de troca, moeda é um instrumento público de remuneração individual do trabalho social, a título de redistribuição interna da renda nacional. Esse é meu conceito de moeda”, defende.
O professor defende que o advento da moeda permitiu a evolução das relações de trabalho. “Sem ela, o mundo viveu por milênios explorando o trabalho escravo”, destaca. Em suas obras, Givaldo desenvolve uma taxonomia própria para a teoria econômica, que, para ele, tem confundido o conceito de inflação com carestia. “Inflação não esclarece nada, fala apenas de intumescimento, enchimento. Prefiro dizer ‘processo inflacionário’, que fala de recessão econômica em grau superlativo, não propriamente de desvalorização da moeda nacional de curso forçado, como entende a teoria econômica atual”, explica.
Para Givaldo, o processo inflacionário está mais relacionado à escassez de alimentos para o mercado interno. Em sua trajetória como intelectual, a preocupação com a fome é antiga e foi uma das motivações para o desenvolvimento de um ambicioso projeto próprio de constituição federal.
“Naquela época, o voto proporcional só existia no Brasil e na Iugoslávia, só que os eleitores iugoslavos votavam na própria etnia, o que não acontece aqui. No Brasil, atualmente, dos 513 deputados, 400 são milionários”, critica.
Preocupado com o problema da representatividade já nos 1970, ele elaborou uma constituição que considerava o voto distrital, com subdivisões entre os estados, para melhor contemplar as demandas regionais. “Nossa atual Constituição dá muito poder ao legislativo. No meu projeto, os estados também teriam maior autonomia para tomar suas decisões”, explica.
A proposta também levava em conta a concentração populacional do país nos litorais. “Em Pernambuco, por exemplo, nossa população fica toda no litoral. Os empregos no campo, na maioria das regiões, acabaram. Com a ‘robotização’, essa pressão vai aumentar inclusive na classe média, que atua no setor de serviços”, prevê.
Concluído em 1978, o projeto constitucional foi enviado para diversas personalidades da época, como o empresário Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, e o deputado federal Ulysses Guimarães, que leu e fez comentários sobre o texto, em um telegrama guardado até hoje nas gavetas do jurista. “Tenho as cartas de diversas editoras agradecendo pela proposta e declinando do convite. Não sei se por falta de interesse ou por causa da censura mesmo. Eu não tinha medo”, sorri Givaldo.
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