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No outono de 1970, Don McLean compôs "Vincent – Starry, Starry Night”, uma canção nascida do encontro entre música e pintura.
Ao contemplar “A Noite Estrelada” (“De sterrennacht”, em holandês) e mergulhar na biografia de Van Gogh, o compositor buscou revelar o pintor não como um louco ou insensato, mas como um homem ferido pela tristeza e, ao mesmo tempo, iluminado pela paixão pela arte. A melodia torna-se um gesto de ternura diante da incompreensão que envolve o artista.
Naqueles tempos de embalos febris e noites que pareciam infinitas, eu me percebia como simples figurante no grande palco da vida – palco sem ensaios, como nos advertira Shakespeare. Escolhi viver intensamente, afastando a melancolia como quem repele uma sombra. E quando ela ousava se aproximar, dissolvia-a em álcool e analgésicos, numa tentativa frágil de anestesiar o espírito.
Era um mundo fantástico, ainda que eu fosse tão somente parte da paisagem. A depressão não tinha nome nem lugar, diferente de hoje, quando é chamada de “o mal do século”. Mas a melancolia que se desprende da canção de McLean me obriga, agora, a refletir sobre aqueles momentos e, de forma mais ampla, sobre como o humano se relaciona com a beleza, o sofrimento e a incompreensão.
A melancolia é ponte entre opostos. Ela nos coloca diante de perguntas filosóficas: onde termina o gênio e começa a loucura? O que significa ver e ser visto? Como o tempo e a memória se entrelaçam? A canção, ao evocar os traços visionários de Van Gogh, nos mostra que o belo pode ser ao mesmo tempo consolo e ferida. A estética melancólica vive dessa ambivalência: celebra o valor do belo, mas suspeita de sua insuficiência diante da dor humana.
As escolas clássicas de psiquiatria definem a melancolia como uma forma patológica de luto, marcada por culpa avassaladora e pela diminuição da autoestima – algo que não ocorre no luto normal. Diferentemente deste, em que o mundo se torna pobre, na melancolia é o próprio Eu que se empobrece, identificando-se excessivamente com o objeto perdido e voltando o sofrimento contra si mesmo.
Com menos cientificismo, a sociologia interpreta a melancolia como fenômeno social e cultural, reflexo do mal-estar contemporâneo em sociedades individualistas. Ela se manifesta em diversas formas: da melancolia societal que paralisa o descontentamento coletivo até a resposta íntima à dor da existência em um mundo de perdas e mudanças constantes, como na recente pandemia da Covid-19. A sociologia observa como a melancolia pode ser explorada politicamente, fomentando passividade, e como as redes sociais intensificam esse estado em jovens, transformando o desamparo em espetáculo.
Van Gogh, na vida e na canção, é paradigma da nossa dificuldade em compreender a mente.
Ele expõe a tensão entre interioridade e reconhecimento. Cada um de nós carrega um mundo secreto, invisível aos olhos alheios. É nesse instante que o olhar coletivo falha, interpretando erroneamente a dor do outro. Afinal, como responsabilizar-se por percepções que ultrapassam o horizonte do que podemos compreender?
Na letra de McLean, a noite estrelada e as cores penetrantes transcendem a imagem: tornam-se memórias que retornam, atravessando plateias e décadas. A melancolia atua como tempo dobrado – o presente que escuta revive o trauma e a glória do passado. O passado não está perdido; ele retorna como imagem que consola e condena ao mesmo tempo. O espectador torna-se testemunha, carregando em si a história de alguém que já partiu, mas cuja dor e beleza continuam a pulsar.
A melancolia da música revela-se multifacetada: estética que valoriza o belo enquanto lamenta sua insuficiência; condição do gênio que denuncia falhas sociais de reconhecimento; memória temporal que mantém vivos gestos e feridas; e disposição ética que prefere o testemunho compassivo ao gesto redentor. A canção não resolve a tensão entre beleza e dor: ela a conserva, tornando-se espelho onde ouvimos, com tristeza compassiva, os ecos de uma visão que o mundo não soube acolher.
Getúlio Medeiros é filólogo, professor de línguas estrangeiras modernas e juazeirense de coração.
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